Do outro lado do Atlântico não conta a odalisca nem o vale de Salicanda. Conta a primeira volta de Pauline Alphen ao Brasil, quando o português ainda era uma língua a reconquistar. O sol de Maceió, os passarinhos, a comida desconhecida e a diversidade das pessoas na rua entram como memória de infância, não como cartão-postal. Em volta dessa viagem, o livro lembra que a França aparece na história do Brasil desde o século XV.
A Companhia das Letrinhas publicou o volume em 2 de setembro de 2003. São 60 páginas, formato quadrado de 20,7 por 20,7 centímetros, brochura, ISBN 978-85-7406-184-9. As ilustrações são de Maria Eugênia. A capa da coleção Memória e História mistura praia, avião, fotografia antiga e uma gravura de nau. O objeto já avisa: isto é livro de olhar, não romance de quatrocentas páginas.
O que a memória faz aqui
A sinopse da editora é direta. Pauline nasceu no Rio de Janeiro, filha de mãe brasileira e pai francês, e foi para a França ainda pequena. O relato é a primeira viagem de volta. Enquanto reaprende o português, ela observa o que o corpo estranha: calor, fruta, gente, bicho. A partir daí, o texto alarga. A história pessoal encosta na história dos dois países, sem virar lição de escola disfarçada.
Esse é o livro em que a biografia pública e a obra se tocam de propósito. No site oficial, a autora descreve a vida repartida em blocos de anos, ora no Brasil, ora na França. Do outro lado do Atlântico é a versão para leitor jovem dessa experiência, ilustrada e curta. Não substitui a entrevista nem o romance. Explica por que tanta página dela insiste em duas línguas, duas músicas, dois modos de existir.
Como ele se diferencia dos outros livros
A odalisca e o elefante é ficção de palácio, escrita em português e premiada pela FNLIJ. Salicande é fantasia de vale, escrita em francês e premiada na França. Este aqui é memória ilustrada, publicada pela Companhia das Letrinhas três anos antes de A porta estava aberta e oito anos antes de Os Gêmeos. Quem compra os três não compra a mesma história em formatos diferentes. Compra três entradas: o conto de amor impossível, a saga e a infância real entre os dois países.
O leitor adulto que busca só a saga pode achar o volume pequeno. Ele é pequeno de propósito. Serve a quem quer ver como Pauline Alphen transforma a própria travessia em livro para criança e jovem, com ilustração de Maria Eugênia e sem disfarçar o sol, a comida e o português reaprendido. A edição continua à venda na loja da Companhia das Letras, no mesmo ISBN de 2003.



