Contexto e proposta de A Superioridade do Homem Tropical
A superioridade do homem tropical parte de uma pergunta incômoda: por que o calor e a mistura de povos foram tratados, por tanto tempo, como obstáculos ao desenvolvimento e à inteligência? Publicado em 1967 pela Civilização Brasileira, no fim da carreira de A. da Silva Mello, o livro reúne décadas de observação clínica e de leitura sobre alimentação, clima e formação do povo brasileiro para contestar esse diagnóstico.
O autor não escreve como sociólogo de gabinete. Médico formado em Berlim em 1914, professor de Clínica Médica no Rio de Janeiro e viajante que conheceu o Nordeste, os Estados Unidos e o Oriente Médio, ele olha para o corpo e para o modo de vida das populações. Sua tese é que o trópico produziu civilizações complexas e que a herança cultural e alimentar desses povos não é inferior a nenhuma outra — apenas foi descrita, durante muito tempo, pelos olhos de quem vinha de fora.
O livro dialoga diretamente com a sociologia de Gilberto Freyre, com quem Silva Mello viajou e debateu o que chamavam de tropicologia. Também retoma críticas que o autor já vinha fazendo em obras como Alimentação no Brasil e Alimentação humana e realidade brasileira: a de que o abandono de hábitos regionais em favor de produtos industrializados enfraquece a saúde e apaga cultura.
Entre os temas que atravessam a obra estão a valorização da dieta tradicional — fubá, farinha de mandioca, rapadura, coentro —, a crítica ao refinamento industrial dos alimentos e a defesa de que o clima quente não é fator desfavorável à cultura. São argumentos que o autor apresentava a partir da clínica, observando pacientes e populações, e não apenas de teorias importadas.
O público do livro é formado por leitores de pensamento social brasileiro, história da medicina, nutrição e estudos sobre identidade nacional. Estudantes interessados no debate racial e climático do século XX encontram aqui uma voz que contrariava o senso comum científico da época. Quem busca compreender o tropicalismo para além da música e das artes também encontra material relevante.
A edição de 1967 pela Civilização Brasileira circula hoje principalmente em sebos, em exemplares usados. Por ser um livro de época, algumas formulações carregam o vocabulário e as polêmicas do seu tempo — o que não diminui seu valor como documento de uma corrente de pensamento que tentou descolonizar a leitura do corpo brasileiro.
Ler A superioridade do homem tropical hoje é acompanhar um clínico que transformou a defesa dos trópicos em programa intelectual, num momento em que o país discutia modernização, alimentação e identidade.




