Contexto e proposta de Ilusões da Psicanálise
Ilusões da psicanálise é a crítica de um médico que acompanhou o nascimento da teoria freudiana de perto. Formado em Berlim em 1914, quando a psicanálise ainda se organizava na Europa, A. da Silva Mello conviveu com analistas da primeira geração — entre eles Wilhelm Stekel, que hospedou no Rio de Janeiro na década de 1920 — e escreveu o livro em 1968, já como professor de Clínica Médica e membro da Academia Brasileira de Letras.
A obra não é uma recusa da psicanálise. O autor reconhece o valor da descoberta do inconsciente e lembra que o Brasil foi um dos primeiros países a acolher essa ciência. O que ele questiona é o que considera excessos do freudismo: o peso atribuído ao trauma do nascimento, a noção de um castigo originário e a leitura de que os instintos humanos seriam essencialmente destrutivos e precisariam ser domesticados pela civilização.
Para Silva Mello, os instintos são a base que permitiu a vida e a felicidade dos homens e dos animais, e é sobre eles que as exigências da existência deveriam ser construídas. Essa posição, desenvolvida no fim de sua carreira, conversa com seu livro seguinte, A superioridade do homem tropical, e com toda a sua defesa de uma vida mais próxima da natureza e menos intermediada por imposições civilizatórias.
O livro também discute o nascimento e a dor no parto, a medicalização do sofrimento e o que o autor via como ilusões medicamentosas do homem moderno. São temas que antecipam, em outra linguagem, debates que a medicina e a psicologia retomariam décadas depois sobre medicalização, escuta clínica e o papel das emoções na saúde.
Quem estuda a história da psicanálise no Brasil encontra aqui um documento raro: um clínico brasileiro que estudou na Alemanha, presenciou o debate europeu e escreveu uma crítica interna, sem abandonar a prática médica. Leitores de psicologia, filosofia e história das ideias também encontram material para discutir os limites do modelo freudiano.
A edição é de 1968, pela Civilização Brasileira, e circula hoje em exemplares usados em sebos. O volume tem mais de 500 páginas e reúne tanto a crítica teórica quanto observações clínicas do autor.
Ilusões da psicanálise interessa a quem quer entender como o pensamento brasileiro recebeu e, ao mesmo tempo, disputou a psicanálise — de dentro da medicina e com repertório internacional.




