Contexto e proposta de Alimentação - Instinto e Cultura
Alimentação, instinto e cultura trata a comida como assunto de medicina, de economia e de cultura. Publicado por A. da Silva Mello em 1943, com o subtítulo Perspectivas para uma vida mais feliz, o livro reúne a experiência de um clínico que pesquisou nutrição, metabolismo e alimentação durante décadas e que via no prato uma questão de saúde pública.
O ponto de partida é simples: o ser humano não come apenas para se sustentar. Come segundo instintos, hábitos e tradições, e é esse conjunto que a medicina deveria levar em conta ao orientar a população. O autor critica a substituição de alimentos regionais por produtos industrializados — o açúcar refinado, o pão de padaria, o arroz descorticado — e chama atenção para o custo nutricional dessa troca.
Em contrapartida, defende o que considerava a sabedoria da cozinha brasileira: o coentro, o fubá, a farinha de mandioca, a rapadura, o uso de panelas e utensílios simples. Para Silva Mello, esses hábitos não eram atraso, mas resultado de uma adaptação inteligente ao clima e aos recursos do país. Ele próprio se apresentava como um "menino da roça", formado na Zona da Mata mineira, e usava a própria trajetória para argumentar contra o desprezo pelas culturas locais.
A obra faz parte do conjunto de livros que o autor dedicou à alimentação — entre eles Alimentação no Brasil (1946), Alimentação humana e realidade brasileira (1950) e O que devemos comer (1964) — e é uma das portas de entrada para o pensamento nutricional brasileiro do século XX.
O público inclui nutricionistas, médicos, historiadores da alimentação e leitores interessados em comida como patrimônio cultural. Professores que trabalham educação alimentar e segurança alimentar encontram no livro argumentos históricos para discutir a valorização de produtos regionais.
A edição disponível em sebos é a terceira, publicada em 1946 pela Livraria José Olympio Editora, em três volumes. Como todo livro do período, traz teses que envelheceram e precisam ser lidas no contexto da época — o que reforça seu interesse como documento da história da nutrição no Brasil.
Alimentação, instinto e cultura mostra como um clínico brasileiro tratou a comida como questão de saúde, cultura e soberania muito antes de esses temas entrarem na moda.




