Contexto e proposta de A Voz de Itabaiana e outras vozes
Há cidades que sobrevivem nos livros antes de sobreviverem nos arquivos. A Voz de Itabaiana e outras vozes reúne crônicas de Fábio Mozart sobre a cidade do vale do rio Paraíba que ele adotou na infância, com histórias de personagens que o autor conheceu de perto: comerciantes, poetas, lavadeiras, ferroviários e figuras excêntricas das ruas do centro.
As 215 páginas, publicadas pela Editora Imprell, alternam cenas do cotidiano e reflexões sobre o que a cidade perdeu no caminho. O autor conta que boa parte das pessoas retratadas já morreu — o que dá ao livro um tom de acerto de contas com a memória. Em uma das crônicas, ele trata do rio Paraíba que cortava a cidade e do poeta que o cantava, morador que se mudou para Pernambuco e só revê as águas em sonho; em outra, lembra a areia do rio que virou símbolo da bandeira municipal e depois foi explorada de forma predatória.
Não é um livro de história oficial. É um livro de vozes: o texto se apoia em conversas, apelidos, brincadeiras e episódios pequenos que explicam como uma cidade do interior se organiza por dentro. Para quem pesquisa a história de Itabaiana, o volume complementa os registros acadêmicos com um material que só existe na lembrança de quem viveu ali. Para quem lê crônicas, funciona como uma coleção de retratos rápidos, sem saudosismo fácil.
Itabaiana aparece no livro menos como cenário e mais como personagem: cidade de estação ferroviária, de feira e de poesia, que já foi chamada de terra de Zé da Luz e viu o rio que lhe deu parte da identidade perder força com a extração de areia. Fábio Mozart escreve sobre esse lugar sem maquiar a passagem do tempo e sem transformar lembrança em lamento. As crônicas curtas funcionam bem para leitura em voz alta, em sala de aula ou em rodas de conversa sobre memória de cidade.
A obra interessa a moradores e descendentes de famílias itabaianenses, a professores que trabalham história local em sala de aula e a leitores de memória regional nordestina. Exemplares usados aparecem em sebos de João Pessoa, geralmente em bom estado e com marcas de leitura — o que, em se tratando de um livro esgotado, é praticamente um documento.





