O poema de abertura, “Pré-história”, nasceu num mês no Rio, com o pai em estado terminal. Antes de dar nomes ao mundo, quinto livro de poesia de Adriana Lisboa, saiu em 2025 pela Relicário: 112 páginas de versos que ela mesma descreveu como algo de diário, compilando momentos específicos vividos enquanto escrevia outros livros.
A coleta começou em 2021, com a morte do pai, e fechou no fim do ano anterior ao lançamento. No meio, Lisboa escreveu o ensaio autobiográfico sobre a perda dos pais e o romance Os grandes carnívoros. A poesia não é resto desses trabalhos: é o caderno em que o tempo, a transitoriedade e a relação do humano com o não humano — temas já da ficção — aparecem sem a armadura do enredo.
O que estes poemas fazem
Edimilson de Almeida Pereira, na orelha, leu o volume como livro de sabedoria num período acossado pelo abandono e pela violência: recusa eloquência e dogmatismo, valoriza o sujeito autocrítico. Cita as “Variações sobre um tema de Li Po” e o risco de tudo o que existe, inclusive a linguagem: “todo este meu discurso / consignado ao chão”. Existir como sinal de menos e, ainda assim, júbilo pela floração do sentido.
Não é um livro de slogans. Não é elegia contínua. Há o pai, há o cotidiano, há o mundo natural, há a desconfiança da própria fala. Quem chegou a Lisboa só pelo romance pode estranhar a economia; quem já leu Pequena música, Deriva ou O vivo reconhece o ouvido. A menção honrosa do Prêmio Casa de las Américas, ainda no livro de 2018, já sinalizava que a poesia não era hobby de romancista.
Para quem este livro existe
Serve a quem lê poesia contemporânea brasileira e tolera verso que pensa, sem virar ensaio versificado. Serve a quem perdeu alguém e não quer consolo de autoajuda, e sim um registro de instantes. Em junho de 2025, Lisboa comentou o livro n’A Feira do Livro ao lado de Júlia de Carvalho Hansen, numa mesa sobre diário, figuras paternas e o cotidiano como matéria. O volume não exige conhecer o romance da autora, mas ganha se o leitor já viu o mesmo tema — tempo, animal, deslocamento — em prosa.
A edição Relicário é compacta, 13 por 21 centímetros, 112 páginas. O objeto é o livro de poemas em papel. Preço de capa oscila com desconto de livraria, por isso não entra aqui como cifra.
Como entrar sem se perder
- Leia em voz baixa, em sessões curtas: o livro não pede maratona
- Aceite o tom de diário sem exigir narrativa com começo, meio e fim
- Se a porta de entrada for o luto, comece pelo poema que a autora leu em público, “Pré-história”
Quem sai destes versos e quer a mesma autora em fôlego longo volta aos romances. Quem quer o ensaio da perda segue para Todo o tempo que existe. Antes de dar nomes ao mundo é o livro em que Lisboa, depois de décadas nomeando personagens e países, desconfia do próprio ato de nomear — e mesmo assim escreve.




