Adelaide incendiou um laboratório de pesquisas nos Estados Unidos, passou três anos presa e volta ao Brasil sem saber se ainda cabe na vida civil. Os grandes carnívoros, romance de 2024 pela Alfaguara, é o livro em que Adriana Lisboa encara de frente a violência — a humana, a institucional e a que se normaliza contra outros animais.
O volume é curto, 176 páginas, e não disfarça o assunto. Adelaide foi do ativismo pelos direitos dos animais a uma ação extrema. Na região serrana do Rio, aluga uma casa mobiliada de Rai e esbarra numa família que parece o contrário da militância: gentileza doméstica, rotina, o risco de novos vínculos. O romance intercala a jornada da ex-presidiária com as incertezas desses laços.
O que o livro discute sem virar manifesto
A pergunta não é “ativar é certo?”. É outra, mais incômoda: por que certas agressões viram crime e outras, hábito? Lisboa aponta o modo arbitrário como a conduta humana em relação às outras espécies é condenada ou normalizada, e não poupa a fragilidade das relações entre pessoas. Maria Esther Maciel escreveu que tudo pulsa com intensidade e provoca indignação contra a arrogância da humanidade perante o mundo vivo.
André de Leones, no Estadão, chamou o livro de “belo livro apocalíptico” e Lisboa de “melhor ficcionista de sua geração”. O elogio é de crítico, não de orelha vazia: o romance trata exílio e redenção sem garantir redenção. Adelaide não volta “recuperada”. Volta em desassossego, e o leitor habita esse pensamento.
Para quem este romance existe
Serve a quem já acompanha a autora e quer o livro mais recente em prosa, depois de Todos os santos. Serve a quem lê ficção contemporânea sobre ética animal, prisão, retorno e o que resta de uma militância depois do extremo. Não serve a quem espera thriller de ativismo, discurso de ONG ou final edificante. Também não é o romance mais “bonito” no sentido ornamental: a frase continua lapidada, o assunto é bruto.
A classificação etária das livrarias aponta 14 anos ou mais. Há violência, cárcere e a cena moral de um incêndio político — tratados em prosa, não em espetáculo. A arte da capa, de Tereza Bettinardi, já antecipa o recorte: o predador estampado, o título em dourado, a palavra “romance” como aviso de que isto não é tratado científico.
O lugar na carreira
Depois de décadas escrevendo deslocamento para fora — Japão, Colorado, Hanói — Lisboa devolve a protagonista ao Brasil. O movimento não cancela o exílio: Adelaide chega de uma prisão americana para uma cidade pequena fluminense, outro tipo de estrangeirice. É o romance de uma autora com mais de 25 anos de estrada, menos interessada em provar fôlego do que em apertar uma questão.
- Comece por aqui se a pergunta for o livro mais recente da autora em romance
- Leia se o interesse for ética animal e violência cotidiana, não só “história de presídio”
- Se quiser primeiro o retrato de família e o prêmio Saramago, volte a Sinfonia em branco
Quem sai deste volume e ainda quer a mesma autora em outro registro pode ir à poesia de Antes de dar nomes ao mundo ou ao ensaio Todo o tempo que existe. Os grandes carnívoros é o aviso de que Lisboa, na maturidade, não amaciou o olhar: apertou o foco sobre o que a espécie faz com as outras — e consigo mesma.




