Aos meus amigos começa quando a turma já não cabe na mesma sala. Leo morreu. Lena, Lúcia, Bia, Beny, Raquel, Caio, Adonis, Pedro, Pingo, Ivan, Tito e Flora, a ex-esposa, se reaproximam num intervalo curto: velório, enterro, a casa onde alguém espera um manuscrito, a casa de Lúcia onde se bebe e se dança para atravessar o dia. Em menos de vinte e quatro horas, o passado inteiro volta.
Maria Adelaide Amaral publicou o romance em 1992. A edição revista pela Editora Instante, lançada em 2024, descreve o livro como retrato de quem viveu os anos 1970 e 1980 e, no começo dos anos 1990, esbarrou na frustração dos ideais de juventude, no avanço da aids, na queda do Muro de Berlim e na primeira eleição depois da redemocratização. O afeto continua. O rancor político também. As duas coisas ocupam a mesma mesa.
De onde a história parte
O Estadão, na cobertura da nova edição, registrou que a trama se inspira na morte de Décio Bar, jornalista, crítico, escritor, artista plástico e compositor, amigo da autora, morto em 1991. Não é preciso transformar o romance em chave biográfica para usar esse dado. Ele explica por que o livro insiste em amizade como matéria, e não como moldura. A própria autora adaptou a história para a televisão: em 2008, a Rede Globo exibiu a minissérie Queridos Amigos.
A edição da Instante não é só reimpressão. Traz carta de Maria Adelaide Amaral aos leitores e prefácio do jornalista Mauricio Stycer. São 288 páginas. O texto foi revisto por ela. Quem leu o volume da Globo nos anos 1990 encontra outra camada de intervenção da autora, não um fac-símile.
Para quem o livro serve
Serve a quem quer o romance que virou minissérie, e não a ficha da minissérie. Serve a quem procura ficção brasileira sobre amizade adulta, luto e desacordo político dentro do mesmo grupo. Serve também a quem acompanha a carreira dela e precisa ver o que aconteceu com a prosa depois de Luísa. Não serve a quem busca a biografia de Dercy Gonçalves, nem a peça Bodas de Papel, nem o diário de uma redação.
O caminho de compra da edição corrente é o livro em português, com prefácio de Stycer e a carta da autora. O enredo cabe numa frase e mesmo assim pede o livro inteiro: um suicídio reúne gente que já não pensa igual e que, ainda assim, não consegue se largar. É esse o contrato do romance. A televisão cumpriu outra etapa, em 2008. A página do livro é o lugar da prosa.
A ficha corrente traz ISBN 978-65-87342-58-0 e 288 páginas. Há uma oscilação de data na primeira edição: a Wikipédia aponta 1991, pela Globo; a edição revista e o texto do Estadão falam em 1992. O que não oscila é o destino do livro. Ele saiu da prosa, esperou mais de quinze anos e voltou como Queridos Amigos, com a própria autora no roteiro. Ler o romance depois da minissérie, ou antes dela, muda a ordem da memória, não o fato de que a história nasceu no papel.



