Luísa (quase uma história de amor) não entrega a mulher do título. Entrega cinco pessoas que acham que a conhecem. Raul, o amigo; Rogério, o ex-chefe apaixonado; Sérgio, o ex-amante; Marga, a amiga; Mário, o ex-marido. Cada um segura um pedaço. O leitor monta o resto e descobre que o retrato não fecha.
Maria Adelaide Amaral já tinha o Molière quando publicou o romance, em 1986, pela Nova Fronteira. A personagem não nasceu no livro. Em 1984, a peça De Braços Abertos tinha colocado Luísa no palco, com Irene Ravache, Juca de Oliveira e direção de José Possi Neto. O romance amplia o que o teatro tinha ensaiado: uma mulher da geração que atravessou os anos 1960 e 1970 em São Paulo, contada por quem orbitava em volta dela, não por uma narradora onisciente.
Por que o livro ainda é procurado
A reedição da Editora Instante, de 2023, registra o Jabuti de melhor obra de ficção no ano seguinte ao lançamento, 1987. A edição nova traz o texto de apresentação de Caio Fernando Abreu e uma carta da autora aos leitores. Não é facsimile da primeira tiragem. É o romance revisto por quem o escreveu, quase quarenta anos depois.
O público que chega aqui costuma querer uma de três coisas. Quer o livro que ganhou o Jabuti e abriu a carreira de romancista de uma dramaturga já conhecida. Quer entender a Luísa que existiu antes no teatro. Ou quer ler, em português e em edição corrente, a história de uma mulher que os outros descrevem sem conseguir esgotar. São pedidos diferentes, e o livro aguenta os três porque a forma é o assunto: ninguém, nem o leitor, fica com a versão final.
O que a edição não promete
Não é autobiografia declarada, nem manual de relação amorosa, nem a minissérie. A televisão entrou na vida da autora por outro caminho. Luísa ficou no livro e na peça. Quem quiser a turma de amigos que vira velório precisa de Aos meus amigos. Quem quiser Ana, o fim do casamento e a consulta ao místico precisa de O bruxo.
Na hora de comprar, o item certo é a edição em português da Instante, com o título completo Luísa (quase uma história de amor). Edições antigas da Nova Fronteira e da Globo existem no sebo. A corrente é a que a autora revisou e a que inclui a carta e o texto de Caio Fernando Abreu. O cenário é São Paulo, a geração é a que saiu da juventude para a vida adulta sob ditadura, e o método é o depoimento cruzado. Sem isso, o nome Luísa no título não basta para achar o livro.
O ISBN da edição de 2023 é 978-65-87342-37-5, com 208 páginas no formato 13,5 por 20,5 centímetros. A ficha da Instante chama o prêmio de Jabuti de melhor obra de ficção de 1987, um ano depois da publicação original. Essa datação evita misturar o ano do livro com o ano do troféu. Quem compara com a peça de 1984 percebe a diferença de escala: no teatro, Luísa cabe numa noite; no romance, ela só aparece refratada, e o leitor precisa aceitar que nenhuma das cinco vozes entrega a mulher inteira.



