O bruxo acompanha Ana no ponto em que a vida organizada deixa de servir. Escritora de meia-idade, ela sai de um casamento de 25 anos e precisa rever o que ainda é seu: o trabalho, os filhos adultos, os amores que não fecharam, o corpo que começa a cobrar uma doença séria. Racional e cansada da psicanálise, procura um místico para saber o que o futuro guarda. O encontro muda o eixo da história.
Maria Adelaide Amaral publicou o romance em 2000. A Editora Instante relançou o texto em 2025, revisto pela autora, com prefácio inédito dela e apresentação de Andréa del Fuego. São 160 páginas. Não é a mesma embalagem da edição Globo. É a prosa de novo, com a autora interferindo no que tinha escrito vinte e cinco anos antes.
O que a trama põe na mesa
A sinopse oficial fala de uma mulher ativa, às voltas com amor, família e profissão, que se transforma no encontro com o bruxo, no embate com os filhos e na descoberta da doença. Del Fuego, na apresentação desta edição, aproxima Ana de figuras como Bovary e Capitu: desejo, culpa e um espaço de ação apertado. A comparação é leitura crítica, não rótulo de capa. Ajuda a situar o livro entre romances de mulher que recalcula a própria vida, e não entre fantasia de feitiço.
Em entrevista de 2025, Maria Adelaide contou que, dos livros dela, este era o que menos gostava, porque o associava a um momento muito crítico. Na reedição, disse ter olhado o texto com mais ternura. O comentário importa para quem escolhe por onde entrar na obra. Luísa é o quebra-cabeça premiado. Aos meus amigos é a turma e o luto. O bruxo é Ana depois do casamento longo, na consulta a um místico que ela leva a sério só aos poucos.
Como ler sem confundir com a televisão
O livro não é roteiro de minissérie, nem peça, nem manual de autoconhecimento. O místico não é método. É personagem. A doença não é tese. É o fato que obriga Ana a reordenar o que ainda cabe no dia. Quem espera o Brasil histórico de A Muralha ou de JK está na prateleira errada. Quem quer a prosa íntima da autora, escrita quando ela já era nome de teatro e de televisão, está no livro certo.
A edição para comprar é a da Instante, em português, com o prefácio novo e o texto de Andréa del Fuego. Edições anteriores da Globo circulam em sebo e não trazem essa revisão. O título curto facilita o engano com outros livros chamados O bruxo. O nome da autora na capa, Maria Adelaide Amaral, e o ano de 2000 na origem resolvem a dúvida.
A ficha de 2025 registra ISBN 978-85-52994-32-9 e 160 páginas, no mesmo formato de bolso largo das outras reedições dela na Instante, 13,5 por 20,5 centímetros. O dado útil para quem já leu Luísa é a mudança de foco. Lá, a mulher é contada pelos outros. Aqui, Ana está no centro, com filhos crescidos, casamento encerrado e uma consulta que ela não tinha previsto fazer. O místico não transforma o livro em fantasia. Ele força a personagem a olhar o que a vida prática já tinha posto na mesa.



