Bellini e a Esfinge abre com um detetive que não herdou o nome do autor por acaso, mas também não é um autorretrato. Remo Bellini atravessa São Paulo atrás de sumiços, um médico morto e um segredo que a sinopse da Companhia das Letras deixa de propósito sem resposta. O livro é de 1995. É o primeiro romance de Tony Bellotto e o primeiro caso de uma série que só voltaria a ter livro novo anos depois.
A ocasião importa. Os Titãs estavam num hiato, e Bellotto, já conhecido como guitarrista, testou se conseguia sustentar um enredo sozinho. Ele contou depois que vinha lendo muito romance policial e que a estrutura do enigma pareceu, no começo, um caminho mais simples. O resultado não é um manual do gênero. É um caso urbano, com perguntas empilhadas: quem é Ana Cíntia Lopes, por que Camila e Dinéia sumiram, quem matou o doutor Rafidjian, qual é o segredo de Beatriz. Bellini percorre o submundo da cidade até um desenlace que a própria editora resume como um gosto ruim na boca.
Por que este livro, e não o seguinte da série
Quem ouve o nome Bellini pela primeira vez cai neste volume. Os outros três — Bellini e o Demônio (1997), Bellini e os Espíritos (2005) e Bellini e o Labirinto (2014) — pressupõem o detetive já apresentado. Começar pelo meio perde o contrato que o autor fez com o leitor em 1995: um investigador paulistano, uma cidade concreta e um mistério que se fecha sem moral de palco.
A edição corrente da Companhia das Letras, de 13 de março de 2017, tem 214 páginas e ISBN 978-85-359-2896-9. Não é outro romance. É a mesma estreia, de volta às livrarias décadas depois do lançamento original. A capa em preto e branco, com viaduto, árvores nuas e a faixa rosa do nome do autor, é a arte dessa edição, não um pôster do filme.
O que o cinema fez com o livro
Em 2001, Roberto Santucci levou a história ao cinema. Fábio Assunção interpretou Remo Bellini. Malu Mader, mulher de Bellotto, entrou no elenco. O longa ganhou o prêmio do público de melhor filme de ficção no Festival do Rio daquele ano. Ver o filme não substitui o romance: o livro é anterior, e a série em papel continuou sem depender das duas adaptações. A segunda, Bellini e o Demônio, só chegou às salas comerciais em 2011.
Para o leitor de policial brasileiro, o interesse está no tom. Bellotto não escreveu uma crônica da banda disfarçada de investigação. O detetive olha São Paulo por baixo, e o autor, na época, já tinha essa cidade como biografia: nasceu na capital, cresceu em Assis e voltava ao eixo da banda. O livro usa esse mapa sem transformar a página numa memória de turnê.
Para quem faz sentido comprar
Faz sentido para quem quer o começo da série, para quem viu o filme de 2001 e não leu a origem, e para quem chegou em Bellotto pelo Jabuti de Vento em Setembro e precisa entender de onde vem o hábito do enigma. Não faz sentido como biografia do guitarrista. Remo Bellini não é Tony Bellotto com outro sobrenome, e a editora trata o volume como romance policial, ao lado de suspense e mistério, não como relato pessoal.
O caminho de compra da edição impressa em português está na Amazon, no mesmo título da Companhia das Letras. Kindle e áudio existem como formatos da mesma obra. Não são livros diferentes. Quem quiser o objeto de estante, o que interessa é a capa comum desta edição, com o detetive ainda no primeiro caso.



