Dom acompanha Pedro Dom, não Remo Bellini. No romance de Tony Bellotto, publicado pela Companhia das Letras em 1º de abril de 2020, um jovem de classe média carioca vira chefe de uma quadrilha de roubo a residências no Rio dos anos 2000. Nasceu em 1981. Aos vinte anos já era procurado. Em 2005, aos 23, foi morto a tiros pela polícia. O livro tem 344 páginas e ISBN 978-85-359-3326-0. É o décimo romance do autor e o primeiro, nessa altura, a sair de um caso real com nome e data.
A editora apresenta o motivo dos assaltos em duas chaves que o próprio texto não escolhe por ele: sustentar o vício em cocaína ou buscar a emoção do golpe. Em volta, Bellotto abre o pai, a desigualdade, a guerra às drogas e um Estado em que agentes corruptos dividem a cena com quem já perdeu a expectativa. A Folha, em maio de 2020, tratou o volume como o melhor livro dele até então, justamente pela mistura de crime e sexo sem soltar a cidade.
O que este romance não é
Não é o quarto Bellini, nem uma reportagem com notas de rodapé. Pedro Dom existiu; o romance organiza a vida dele do ponto de vista de um ficcionista que já tinha quatro livros de detetive e vários outros títulos de crime. A diferença é o pacto. Em Bellini e a Esfinge, o leitor aceita um investigador inventado. Em Dom, o leitor reconhece um surname que a imprensa carioca já tinha publicado, e cobra do autor o que ele faz com esse material.
Também não é a série de televisão. A capa atual da Companhia das Letras traz a marca Prime Video e a frase “a história que inspirou a série”. A série veio depois do livro. Quem compra o volume por causa da adaptação encontra a origem em papel, com o nome de Bellotto na capa, não o roteiro filmado. A arte com três personagens e o Pão de Açúcar ao fundo é a desta edição ligada à série, e é a imagem que a editora usa agora para o mesmo ISBN de 2020.
Onde o livro cabe na carreira
Até 2014, o nome literário de Bellotto estava grudado em Bellini. Lô (2018) já tinha saído da série. Dom empurra essa saída para um caso que o Rio inteiro podia checar. Quatro anos depois, Vento em Setembro iria numa direção diferente, de volta a Assis e a um crime de família sem detetive fixo. Ler Dom no meio desse percurso mostra o autor testando o quanto de fato público um romance policial aguenta antes de virar crônica judicial.
O guitarrista dos Titãs não some do crédito, mas o livro não precisa da banda para funcionar. O cenário é residência, carro, pai e polícia no Rio. Quem só conhece Flores e Sonífera Ilha encontra aqui o outro ofício em sua forma mais direta: um crime com certidão, contado em 344 páginas.
Para quem o livro serve
Serve para quem quer o Bellotto pós-Bellini, para quem viu a série e quer o romance que a originou, e para quem lê policial brasileiro colado em caso real, no recorte do Rio nos anos 2000. Não serve como biografia de Pedro Dom para trabalho escolar: é ficção construída sobre uma vida documentada, e a editora deixa isso claro ao falar em romance. Não serve, tampouco, de porta de entrada da série do detetive. Essa porta continua sendo Bellini e a Esfinge.
A edição em português está na Amazon, em capa comum, no título Dom de Tony Bellotto. Formatos digitais repetem a mesma obra. O que distingue a compra é a edição da Companhia das Letras, com a capa que hoje conversa com a série e com o texto publicado em 2020.



