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Tony Bellotto

Antonio Carlos Liberalli Bellotto

Nascimento: 1960 São Paulo, SP / Rio de Janeiro, RJ
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Guitarrista dos Titãs desde a formação da banda e autor da série Remo Bellini. Vento em Setembro recebeu o Jabuti de romance literário em 2025.

Aos dez anos, Tony Bellotto viu uma foto de Jimi Hendrix numa revista e decidiu que seria guitarrista antes de ouvir o som. A decisão atravessou a infância em Assis, a guitarra dos Titãs e uma segunda mesa de trabalho: em 2025, o romance Vento em Setembro lhe rendeu o Prêmio Jabuti de romance literário.

O nome de batismo é Antonio Carlos Liberalli Bellotto. Nasceu em São Paulo em 30 de junho de 1960, filho da arquivista Heloísa Liberalli Bellotto e do historiador Manuel Bellotto, os dois professores universitários. A infância e a juventude correram no interior paulista, sobretudo em Assis, com passagens por Presidente Prudente, Martinópolis e Santos, onde estudou arquitetura por dois anos. A biblioteca de casa ficou; a prancheta, não.

Quem procura Tony Bellotto

O nome chega por duas portas que quase não se falam. Uma é a música: Polícia, Flores, Sonífera Ilha, o pulso que ainda pulsa, a guitarra que a plateia reconhece antes do refrão. A outra é a literatura: Remo Bellini, detetive de São Paulo, e o Jabuti de 2025. Há ainda quem o encontre como marido da atriz Malu Mader, casamento público desde o fim dos anos 1980.

Em entrevista ao Estadão em 2024, Bellotto disse que não vê relação direta entre compor numa banda e escrever um romance. A música dos Titãs é coletiva. O livro é solitário. O que a escrita mudou, segundo ele, foi a disciplina: depois que passou a escrever, ficou mais regrado também na composição. Quem quer uma fórmula única de “artista completo” não encontra. Encontra dois ofícios com calendário compartilhado e métodos diferentes.

Infância em Assis e a escolha da guitarra

A carreira de palco começou em Assis, a cidade em que a família morava. O relato que ele deu ao programa Trilha de Letras, da TV Brasil, fixa o momento: aos dez anos, a foto de Hendrix bastou. A literatura cresceu no mesmo período. Filho de professores, ele descreveu a biblioteca como um dos cantos mais especiais da casa e disse que o desejo de escrever veio junto com o violão, ainda na adolescência, nos anos 1970.

O sonho de escritor ficou em segundo plano quando os Titãs estouraram no começo dos anos 1980. Perto dos trinta, já com a banda consolidada, um amigo do pai perguntou se ele ainda escrevia. A pergunta reabriu o projeto. Na época lia muito romance policial e imaginou que a estrutura do enigma seria um caminho mais fácil. Depois concluiu o contrário: é justamente esse tipo de escrita que mais o move.

O que a guitarra dele sustenta nos Titãs

Bellotto é guitarrista, compositor e, nas fases mais recentes, também vocalista dos Titãs desde a criação da banda, na década de 1980. De um grupo que chegou a ser um noneto, restam três nomes no palco atual: ele, Branco Mello e Sérgio Britto. O instrumento rendeu quatro indicações de melhor instrumentista: Prêmio Multishow em 1998, 1999 e 2000, ano em que venceu, e Prêmio Contigo! MPB FM em 2014.

As parcerias explicam por que o nome dele aparece no crédito de faixas que o público trata como da banda, não de um guitarrista só:

  • Sonífera Ilha, com Branco Mello, Marcelo Fromer, Carlos Barmack e Ciro Pessoa.
  • Flores, com Charles Gavin, Paulo Miklos e Sérgio Britto.
  • O Pulso e Televisão, com Arnaldo Antunes e Marcelo Fromer.
  • Família, com Arnaldo Antunes.
  • Domingo, com Sérgio Britto, e Pra Dizer Adeus, com Nando Reis.

Polícia e Isso também entram nessa lista de clássicos assinados por ele. Não são faixas laterais. São o repertório que ainda segura turnê.

Em 1985, numa operação na Avenida Paulista, a polícia parou o táxi em que Bellotto estava e encontrou heroína. Ele foi autuado por porte, pagou fiança e respondeu em liberdade. Arnaldo Antunes, de quem Tony disse ter comprado a droga, foi autuado como traficante. O episódio é registro policial da década, não um capítulo à parte da obra.

Entre abril de 2023 e março de 2024, a turnê Encontro reuniu a formação histórica no palco: Sérgio Britto, Branco Mello, Nando Reis, Charles Gavin, Paulo Miklos e Arnaldo Antunes, além de Bellotto. Em 2024, o trio atual — ele, Branco e Sérgio — lançou Microfonado, com regravações de Sonífera Ilha, Cabeça Dinossauro e Marvin ao lado de convidados. Em maio de 2026, aos 65 anos, ele estava na turnê Titãs — Cabeça Dinossauro 40 Anos. Na conversa com a Veja Rio, avaliou que o discurso de rebeldia do rock perdeu espaço e que esse lugar, hoje, cabe mais ao rap.

Remo Bellini e o ofício paralelo

A estreia literária saiu em 1995, num hiato dos Titãs: Bellini e a Esfinge, pela Companhia das Letras. O detetive é Remo Bellini, e o território é o submundo de São Paulo. A série continuou com Bellini e o Demônio (1997), Bellini e os Espíritos (2005) e Bellini e o Labirinto (2014). Não são quatro formatos do mesmo livro. São quatro casos, separados por anos em que a banda seguia gravando e excursionando.

O primeiro romance virou filme em 2001, dirigido por Roberto Santucci, com Fábio Assunção como Bellini e Malu Mader no elenco. Levou o prêmio do público de melhor longa de ficção no Festival do Rio daquele ano. O segundo livro foi adaptado por Marcelo Galvão, de novo com Assunção. O filme apareceu no Festival do Rio em 2009 e entrou no circuito comercial brasileiro em 2011.

A estante segue depois da série. Pela mesma editora vieram, entre outros, BR 163: Duas Histórias na Estrada e O Livro do Guitarrista (2001), Os Insones (2007), No Buraco (2010), Machu Picchu (2013), Lô (2018) e Dom (2020). Em 2015, com Arnaldo Antunes e ilustrações de Loro Verz, saiu o infantil Família, na coleção Músicas para Ler, da Editora Salamandra: a letra da canção transformada em livro, não um romance novo.

Televisão, jornal e a casa no Rio

De 1999 a 2016, Bellotto apresentou Afinando a Língua no Canal Futura, um programa de língua portuguesa em tom de conversa, não de aula formal. Entre 2008 e 2011 manteve na Veja a coluna Cenas Urbanas. Em junho de 2013 passou a escrever aos domingos no Segundo Caderno de O Globo, no mesmo movimento em que Adriana Calcanhotto também estreava como colunista do jornal.

A vida fora do crédito musical é pública em poucos pontos, e esses pontos bastam. É casado com Malu Mader desde o fim da década de 1980 e pai de três filhos, dois deles com a atriz. Em 2024, a Veja São Paulo o fotografou em casa no Rio de Janeiro. O nascimento continua sendo São Paulo. Numa coluna de 2011 ele se descreveu como santista da geração Pelé. Em entrevistas, já se declarou ateu e defensor da legalização das drogas. O Instagram @tonybellottooficial o apresenta como vocalista e guitarrista dos Titãs.

Há outros músicos brasileiros que também publicam livros. Denis Mandarino, por exemplo, junta violão clássico, pintura e texto. O caso de Bellotto é outro: a banda não virou memória enquanto os romances cresciam. Os dois calendários continuam abertos ao mesmo tempo.

O Jabuti, Dom e o exame de 2023

Dom, de 2020, foi o décimo romance e saiu da série Bellini. Parte de um caso real: Pedro Dom, jovem de classe média que liderou uma quadrilha de assaltos a residências no Rio e foi morto pela polícia em 2005, aos 23 anos. Vento em Setembro, lançado em 10 de julho de 2024, é o décimo primeiro livro e também não traz o detetive. A trama começa numa fazenda de Assis nos anos 1970 e chega à Ouro Preto de agora. A capa é de André Hellmeister. Em outubro de 2025, o livro venceu o Jabuti de romance literário. O PublishNews registrou Bellotto e Ruy Castro entre os grandes vencedores da 67ª edição do prêmio.

Em maio de 2026, na mesma entrevista da turnê de Cabeça Dinossauro, Bellotto contou que um exame de rotina, cerca de dois anos antes, havia encontrado um câncer de pâncreas. Falou do tratamento ao lado da informação de que a banda seguia na estrada. Não é um desvio de biografia. É o dado mais recente de uma carreira que, aos 65 anos, ainda divide a semana entre palco e página.

Quem chega pela guitarra encontra um romancista premiado. Quem chega pelo Jabuti encontra um dos três Titãs que continuam em turnê. As duas frases descrevem a mesma pessoa, e nenhuma das duas basta sozinha.

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Vento em Setembro
Vento em Setembro
Décimo primeiro livro de Tony Bellotto, lançado em 2024 pela Companhia das Letras. Venceu o Jabuti de romance literário em 2025.
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Dom
Dom
Romance de 2020 em que Tony Bellotto acompanha Pedro Dom, jovem de classe média à frente de assaltos a casas no Rio, morto pela polícia em 2005.
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