Berta Ribeiro ficou décadas colada ao nome de Darcy Ribeiro. Berta Ribeiro: aos índios, com amor, de Ana Arruda Callado, separa as duas trajetórias sem apagar o casamento. A proposta pública do livro é mostrar a antropóloga que organizou o trabalho do marido e, depois, construiu obra própria sobre a cultura material dos povos indígenas do Brasil.
A Batel lançou a primeira edição em 2016, no Rio de Janeiro, com ISBN 978-85-99508-76-3 e cerca de 175 páginas. O subtítulo é uma biografia. O título, aos índios, com amor, já indica o eixo: não é um estudo de aldeia. É a vida de Berta Gleizer Ribeiro, nascida Bertha Gleizer em 2 de outubro de 1924, em Bălți, na Bessarábia, e morta no Rio de Janeiro em 17 de novembro de 1997.
A vida que o livro percorre
Berta chegou ao Brasil ainda criança, de uma família judia perseguida na Romênia. Em 1946 conheceu Darcy Ribeiro. Casaram-se em maio de 1948, quando ele entrou no Serviço de Proteção aos Índios. Naquele ano foram a campo entre Kadiwéu, Kaiowá, Terena e Ofaié-Xavante, no sul do Mato Grosso. Ela datilografava, organizava o material e aprendia etnologia no trabalho. Darcy escreveria depois, em Confissões, que a esposa colaborou como auxiliar de pesquisa e teve ali a primeira formação de observadora direta.
O casamento durou cerca de 25 anos. A separação, nos anos 1970, não encerrou o ofício. Berta seguiu na antropologia, na museologia e no estudo da cestaria, da plumária e dos povos do Alto Rio Negro. A tese de 1980, A civilização da palha, e o Dicionário do artesanato indígena, de 1988, são marcos dessa obra própria. Entre os Desâna, no Rio Tiquié, ajudou a publicar Antes o mundo não existia, com autoria atribuída a Firmino Lana e Luiz Lana. Callado, em texto seu de síntese dessa vida, descreveu o percurso como uma busca de família: a que se perdeu na Bessarábia, a que Darcy ofereceu por um tempo, e a que Berta encontrou entre os Desâna.
Por que o perfil importa na obra de Callado
O livro continua a série de mulheres que Ana Arruda Callado tirou da sombra de homens famosos. Aqui o homem famoso é o antropólogo e político com quem Berta trabalhou e de quem se separou. A apresentação do volume insiste num ponto: ela não ficou na arrumação do turbilhão de ideias dele. Tornou-se especialista da cultura material indígena. Uma tese da Universidade Federal da Bahia, de 2024, incluiu este título entre as biografias de Callado que revisam o lugar das mulheres na memória brasileira, ao lado de Dona Maria José, Maria Martins e Lygia, a recordista.
O leitor de antropologia encontra a romena que virou referência em trançado, plumária e museu. O leitor de Callado encontra o mesmo método dos outros perfis: reportagem longa, com origem, casamento, separação, obra e limite. Não é manual de campo nem catálogo do Museu do Índio, onde Berta atuou. É a história da pessoa. O arquivo central da UnB, ao reconstruir expedições e a temporada Desâna, cita este livro da Batel como fonte, ao lado dos cadernos da Fundação Darcy Ribeiro.
Como não confundir o exemplar
Há outros livros de e sobre Berta Ribeiro, inclusive os que ela assinou com Darcy, como Arte plumária dos índios Kaapor. O volume de Callado é outro objeto: biografia de 2016, editora Batel, subtítulo aos índios, com amor. A capa traz o nome da biógrafa e uma fotografia de Berta entre indígenas. É esse exemplar que corresponde ao perfil, não um estudo acadêmico posterior que apenas use a vida dela como nota de rodapé.



