Darcy Vargas atravessou o Brasil de Getúlio e quase sumiu do relato. Darcy, a outra face de Vargas, de Ana Arruda Callado, existe para repor essa mulher no centro dos anos em que ela estava no palácio, no quarto alvejado e na assistência, não só na legenda da foto oficial.
A edição da Batel saiu em 2011, no Rio de Janeiro, com cerca de 288 páginas e ISBN 978-85-99508-32-9. A vida contada é a de Darcy Sarmanho Vargas, morta em 1968. O recorte vai dos anos 1920 aos anos 1960, o período em que o marido ocupou, perdeu e retomou o poder. O livro não é uma história do Estado Novo com a esposa de enfeite. É o perfil de quem dormia no Palácio Guanabara quando os integralistas cercaram o prédio e as balas atravessaram o quarto.
O que o perfil escolhe contar
A apresentação pública da obra enumera cenas que a crônica política costuma deixar de lado. O cerco integralista. A morte precoce do filho Getulinho. A dedicação à filha Jandira. Os amigos Austregésilo de Athayde, Rodrigo Otávio e Paulo Moutinho. A presença de Darcy nos momentos finais de Getúlio Vargas. São episódios de casa e de poder ao mesmo tempo, e é nessa dobra que Callado trabalha.
Em entrevista ao Portal PUC-Rio Digital, a autora disse que Darcy pertence a um grupo de mulheres pioneiras mesmo numa posição que a sociedade do século XX tratava como inferior. O livro era, na conta dela na época, mais um perfil nessa série, ao lado de Maria José Barboza Lima, Jenny Pimentel de Borba, Adalgisa Nery, Maria Martins e Lygia Maria Lessa Bastos. Ela avisou, na mesma conversa, o limite do gênero: falou de Darcy, mas muita coisa quem leu o livro não ficou sabendo, e ela também não conseguiu saber.
Para quem o livro serve
O leitor que chega por Getúlio encontra a mulher que segurou a rotina familiar dentro do cerco e da política. O leitor que chega por Ana Arruda Callado encontra o método que ela já tinha ensaiado nas redações: tratar biografia como reportagem longa, com cena, nome e falha assumida. Não há promessa de revelação total. Há um perfil que devolve Darcy ao período em que o país a conhecia sobretudo como primeira-dama.
O que fica de fora de propósito
Callado não apresenta o volume como arquivo definitivo da era Vargas. A tese dela, dita em público, é que biografia completa é impossível. O livro organiza o que pôde ser apurado sobre a face doméstica e política de Darcy, inclusive o peso da morte do filho e a atuação nos dias finais do presidente. Quem quiser a máquina do Estado Novo precisa de outros autores. Quem quiser a mulher que estava no quarto quando as balas entraram encontra o caminho neste título da Batel.
A edição impressa traz imagens, no registro de bibliotecas que catalogam o volume de 2011. O formato é o de um livro de leitura, em torno de 14 por 21 centímetros, não o de um álbum. Serve a quem quer a trajetória de Darcy Vargas narrada por uma jornalista que passou a vida escrevendo perfis de mulheres, e não um resumo escolar do marido.



