Maria Martins entrou na história da arte brasileira pela porta errada. Durante décadas o nome circulou como embaixatriz e como amante de Marcel Duchamp, enquanto as esculturas ficavam em segundo plano. Maria Martins, uma biografia, de Ana Arruda Callado, é a tentativa de inverter essa ordem.
A Gryphus publicou o livro em 2004. O ISBN é 978-85-7510-083-7. A Folha de S.Paulo tratou o lançamento em 13 de novembro daquele ano, na Ilustrada, como a biografia que a escultora ainda não tinha no Brasil. Maria de Lourdes Faria Alves, nascida em Campanha, Minas Gerais, em 1894, e morta em 1973, tinha sido amiga de Picasso e Mondrian, entrevistara Mao Tsé-Tung e construíra uma obra que, fora do país, já ocupava museus. Aqui, Callado escreveu, o reconhecimento não acompanhou.
De onde saiu o livro
A própria autora localizou o impulso numa visita, em 2001, a uma mostra de surrealismo no Rio. Viu dezoito esculturas de Maria Martins. A pergunta que registrou depois é direta: por que, até aquele momento, só ouvira falar dela como embaixatriz ou como amante de Duchamp? O livro nasce dessa revolta de repórter, não de um catálogo de exposições.
Callado também explicou à Folha o critério. Não achava que biografia precisasse ser buraco de fechadura. Contou o que lhe pareceu importante para traçar o perfil. O caso com Benito Mussolini, de 1923, entra com duas menções porque a filha da escultora, Anna Maria, confirmou. Não vira capítulo de escândalo. A vaidade, o gosto de ser “do contra”, a reclusão na velhice e a comparação que a biógrafa faz com Tarsila do Amaral ficam no mesmo plano: traços para entender uma artista que queria o centro da sala e, no Brasil, ficou à margem.
Quem lê e o que não deve esperar
O público é duplo. Quem estuda surrealismo e bronze encontra a mulher que, nos anos 1940, mostrou a série Amazônia na Valentine Gallery, em Nova York, e conviveu com Breton, Léger e Picasso. Quem lê Ana Arruda Callado encontra mais um perfil de mulher que teve poder e fez obra, no mesmo impulso que levou a autora a Darcy Vargas, Adalgisa Nery e Berta Ribeiro.
O volume não substitui um catálogo raisonné. Críticos e pesquisadores posteriores usaram o livro como fonte de vida, às vezes lamentando que a produção artística ocupe menos páginas do que o percurso pessoal e político. Esse limite está dito pela própria natureza do texto: é biografia de jornalista, com cena e testemunho, não ficha de museu. Em abril de 2023, Callado voltou ao assunto numa mesa da Associação Comercial do Rio de Janeiro, ao lado da curadora Fernanda Lopes, com o Galo gaulês II exposto no hall. O livro continuava sendo a porta de entrada para quem quer a pessoa antes do verbete de arte.
O que a capa já entrega
A capa da Gryphus traz o retrato de Maria e o nome da biógrafa. Não é um livro de arte para folhear pranchas. É leitura de trajetória: a mineira que escapou do destino de dondoca, a diplomata, a escultora que o Brasil tardou a tratar como artista do mesmo porte das que já estavam no cânone. Para comprar, o caminho é o exemplar da Gryphus identificado por esse título e por esse ISBN, não uma monografia posterior de outro autor sobre a mesma escultora.



