Em 1966, o Diário Carioca colocou Ana Arruda na chefia de reportagem e transformou o fato em anúncio. O jornal tinha doze páginas, dono novo, Horácio de Carvalho, e a direção nas mãos de Prudente de Morais Neto. Zuenir Ventura ficou com a chefia de redação. Para a reportagem, o nome que saiu da conversa foi o dela, a repórter que no Jornal do Brasil já tinha assinado séries incômodas. Nunca antes uma mulher tinha comandado aquela mesa num jornal brasileiro.
Quem procura Ana Arruda Callado costuma chegar por um de dois lados. Ou quer a chefe que precisou se impor numa redação de homens. Ou quer a biógrafa que passou décadas escrevendo perfis de mulheres deixadas à sombra de maridos, presidentes e movimentos artísticos. Os dois lados são a mesma pessoa. Nasceu no Recife em 19 de maio de 1937, fez a carreira no Rio de Janeiro e enviuvou do escritor Antônio Callado.
Quem é Ana Arruda Callado
Ana Arruda Callado é jornalista, escritora e professora. Formou-se em jornalismo pela Faculdade Nacional de Filosofia em 1957, doutorou-se em Comunicação Social pela Universidade Federal do Rio de Janeiro e deu aula na Escola de Comunicação da UFRJ, na Universidade Federal Fluminense e na PUC-Rio. Na Associação Brasileira de Imprensa foi conselheira e, entre 2001 e 2003, presidente do Conselho Administrativo. Também é membro do PEN Clube do Brasil.
O nome com que entrou nas redações era Ana Arruda. Callado veio do casamento com o escritor Antônio Callado, morto no Rio de Janeiro em 28 de janeiro de 1997. Antes disso, a assinatura das reportagens e o tratamento na redação eram o nome de solteira.
Do Recife ao Jornal do Brasil
O Diario de Pernambuco registrou que a família deixou o Recife quando Ana ainda era criança, depois da transferência do pai, funcionário do Ministério da Agricultura. Foram morar numa casa dentro do Jardim Botânico. Anos mais tarde, em entrevista publicada no Jornal da ABI em 2013, ela contou um jornalzinho de família feito na adolescência, o Repórter 1907, nome tirado do número do apartamento na Rua Senador Vergueiro.
O curso de jornalismo começou em 1955. Formada, foi ao Jornal do Brasil procurar Wilson Figueiredo, então chefe de reportagem. Ele pediu um momento, falou com Odylo Costa Filho e voltou com um estágio para a segunda-feira. Figueiredo diria depois que a candidata parecia ter doze anos. O estágio durou pouco. A ABI registra que, três meses depois, ela estava contratada e permaneceu cerca de quatro anos na casa.
Em 1958, ainda no Jornal do Brasil, ganhou o Prêmio Herbert Moses com a série Reforma Agrária: todo mundo fala e ninguém faz. Ela mesma contou, em texto à BBC Brasil, que a série saiu no primeiro ano de jornal. No ano seguinte, uma série sobre crianças de rua recebeu menção honrosa do Prêmio Esso. Foi menção, não o prêmio principal. Em 1962 trocou o JB pela Tribuna da Imprensa.
A chefia que a redação resistiu a obedecer
No Diário Carioca, o anúncio correu mais depressa do que o respeito. No relato que publicou na BBC Brasil em 2017, Ana descreve o terceiro ou quarto dia no cargo. Chegou cedo, leu os noticiários em papel, fez a pauta e distribuiu as tarefas. Um repórter passou sem cumprimentar. Quando ela perguntou da matéria, ouviu que não tinha dado em nada e viu o homem sair de paletó no dedo. No fundo da sala, outros riam. Ela ligou para o departamento de pessoal e pediu a demissão dele, em voz alta, para a redação escutar.
A cena explica a frase que ficou do episódio. Ela disse ter precisado ser “sargentona” para ganhar respeito. Em conversa reunida pela ABI sobre a história do Diário Carioca, admitiu outro incômodo: o jornal fez marketing com “a primeira mulher chefe de reportagem do Brasil”, e ela nunca soube ao certo se os convites que recebia vinham do trabalho ou da propaganda.
O Sol, a televisão e a universidade
Em setembro de 1967 entrou na equipe que criou O Sol, jornal alternativo lançado como suplemento do Jornal dos Sports e, dois meses depois, circulando sozinho. A ABI a registra como editora-chefe dessa experiência. Passou também pela revista Senhor e pelos programas Jornal de Vanguarda e Squire, da TV Rio. No começo dos anos 1970 voltou ao Jornal do Brasil para editar o suplemento infantil.
A sala de aula ocupou o lugar que a redação diária foi deixando. Doutora pela UFRJ, deu aulas de jornalismo na ECO, na UFF e na PUC-Rio. Nos anos 1990 foi coordenadora editorial da revista Estudos Feministas, da Universidade Federal de Santa Catarina. Na ECO chegou à diretoria-adjunta de graduação e participou de comissões do Ministério da Educação ligadas ao exame nacional dos cursos de jornalismo.
Biografia tratada como reportagem longa
O giro para os livros não apagou o ofício de repórter. Ao Diario de Pernambuco, ela resumiu o método numa frase seca: uma biografia, no jeito dela, é uma grande reportagem. À PUC-Rio, ao falar de Darcy, a outra face de Vargas, disse que prefere chamar esses livros de perfis. A biografia completa, na avaliação dela, não existe. Sempre falta fato. Sempre fica alguém de fora.
O que a tornou reconhecível fora das redações foi uma fila de mulheres, não um romance de formação da própria autora. Esses perfis entram no território da literatura de não ficção: devolvem ofício, constrangimento e decisão a figuras que a crônica política e artística costumava citar como esposa, musa ou primeira-dama.
- Dona Maria José, de 1995, sobre Maria José Barboza Lima.
- Jenny, amazona, valquíria e vitória-régia, de 1996, sobre Jenny Pimentel de Borba, pela DL Brasil.
- Adalgisa Nery, muito amada e muito só, pela Relume Dumará, em 1999.
- Maria Martins, uma biografia, pela Gryphus, em 2004.
- Lygia, a recordista, de 2009, sobre Lygia Maria Lessa Bastos, e Darcy, a outra face de Vargas, de 2011, ambos pela Batel.
- Berta Ribeiro: aos índios, com amor, também pela Batel, em 2016.
Fora dessa linha há ficção e adaptação. Em 2003 a Rocco publicou o romance Uma aula de matar. Em 2011 ela assinou o roteiro da versão em quadrinhos de Pedro Mico, peça de Antônio Callado, com desenhos de Ney Megale e edição da Nova Fronteira. Há ainda ensaio acadêmico, como Os editoriais da abolição, de 1989, e traduções. O miolo público da obra, porém, continua sendo o perfil de mulher concreta, com data, casa, cargo e limite.
Onde a voz dela ainda aparece
Em abril de 2023, Ana participou de uma mesa na Associação Comercial do Rio de Janeiro sobre Maria Martins, ao lado da curadora Fernanda Lopes. A escultura Galo gaulês II estava no hall. Em agosto de 2025, deu entrevista à série Trabalhismo na História, do Centro de Memória Trabalhista, sobre o convívio com Darcy Ribeiro. Lembrou o modo como ele falava com funcionários: em vez de “você não entendeu?”, perguntava “filho, será que você não entendeu o que eu falei?”.
Nas redes, o nome se mistura com outras mulheres: loja de moda, profissional de saúde, dançarina de samba, roteiros de turismo. Nenhuma dessas páginas é a jornalista nascida no Recife em 1937. O lugar institucional em que a trajetória de redação e de livros aparece reunida é o perfil da Associação Brasileira de Imprensa.




