Contexto e proposta de Bom-dia Todas as Cores!
Bom-dia, todas as cores! conta a história de um camaleão simpático que vivia mudando de opinião, isto é, de cor. Encontrava o sabiá-laranjeira e ficava dourado. Encontrava o louva-a-deus e ficava verde. Trocava de cor como quem troca de roupa, um arco-íris ambulante determinado a agradar os outros. O problema, claro, é que os outros são diferentes uns dos outros. Por mais que se esforce, ninguém agrada a todos.
Ruth Rocha transforma essa constatação em verso e fábula. O camaleão matuta sozinho em casa: uns gostam de farofa, outros de farelo; uns querem maçã, outros marmelo; tem quem goste de sapato e quem goste de chinelo. “E se não fossem os gostos, que seria do amarelo?” A pergunta é engraçada e cortante. O livro não prega autoestima em cartaz. Mostra o cansaço de quem se desfaz da própria cor para caber no gosto alheio — e a decisão que vem depois.
Ilustrado por Madalena Elek e publicado pela Salamandra na série Vou Te Contar!, o volume tem 40 páginas e se dirige a leitores de 7 a 9 anos, embora funcione em voz alta para crianças menores. É um dos títulos mais procurados da autora depois de Marcelo e do reizinho, sobretudo por professores que trabalham diferença, convívio e identidade sem discurso pesado.
O camaleão de Ruth Rocha não é mascote de diversidade. É um personagem de conflito: quer ser aceito e descobre o preço da aceitação total. Essa nuance evita o moralismo que a própria autora sempre recusou. A criança entende a história no plano da cor e do bicho; o adulto reconhece o combinado social de agradar, ceder e desaparecer.
Para quem monta uma pequena estante de Ruth Rocha, Bom-dia, todas as cores! completa o arco aberto por Palavras, Marcelo e o reizinho. Depois da língua, do poder e da alfabetização, chega a vez da pergunta mais íntima: de que cor eu fico quando paro de tentar ser todas?





