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Foto de perfil de Ruth Rocha

Ruth Rocha

Nascimento: 1931 São Paulo, SP
Escritora paulistana de literatura infantil, autora de Marcelo, Marmelo, Martelo. Publicou mais de 200 livros, recebeu oito Jabutis e teve a obra traduzida para 25 idiomas.

Ruth Rocha descobriu o ofício de um jeito pouco solene. Uma amiga da revista Recreio a trancou numa sala e disse que só saía dali com uma história pronta. Saiu Romeu e Julieta: duas borboletas, uma azul e uma amarela, que não podiam brincar juntas. Era o começo de uma escritora que, em plena ditadura militar, passou a tratar a criança como interlocutora, não como plateia de lição de moral.

Nascida em São Paulo em 1931, Ruth Machado Lousada Rocha virou um nome que atravessa gerações de leitores. São mais de duzentos títulos, traduções em vinte e cinco idiomas e uma presença que ainda ocupa escola, livraria e sala de casa. Em 2024, aos 93 anos, renovou o contrato de exclusividade com a editora Salamandra por mais quinze anos. Quem procura a autora de Marcelo, Marmelo, Martelo encontra menos um retrato de musa e mais uma trabalhadora da palavra: formada em ciências políticas, orientadora educacional e editora antes de virar o sobrenome que as crianças repetem.

De Vila Mariana à Recreio: como Ruth Rocha começou a escrever

A infância da escritora se passou no bairro da Vila Mariana, então mais campestre, numa casa de leitores e contadores de histórias. O pai, o médico Álvaro de Faria Machado, e a mãe, Esther Coelho de Sampaio, vieram do Rio pouco antes do nascimento da segunda filha. Foi a mãe quem primeiro encheu a casa de anedotas de família. Depois veio o avô Francisco Sabino Coelho de Sampaio, o Vovô Ioiô, capaz de misturar Grimm, Perrault, Andersen e As Mil e Uma Noites no tom popular brasileiro.

A porta da literatura, porém, abriu de vez com Monteiro Lobato. Ruth Rocha conta que As reinações de Narizinho e Memórias de Emília fizeram o trabalho que nenhuma cartilha faria. Adolescente, deslumbrou-se com a Biblioteca Circulante no centro de São Paulo e saiu lendo Fernando Pessoa, Manuel Bandeira, Machado de Assis e Guimarães Rosa. Aos 13 anos, um trabalho escolar sobre A cidade e as serras, de Eça de Queirós, reforçou a paixão pela ficção.

Formou-se em Ciências Políticas e Sociais pela Escola de Sociologia e Política de São Paulo. Foi aluna de Sérgio Buarque de Holanda, o autor de Raízes do Brasil, e chegou a viajar com o historiador e outros estudantes para Ouro Preto. Na faculdade conheceu Eduardo Rocha, de quem herdou o sobrenome pelo qual o Brasil a reconhece. Casaram-se e viveram juntos 56 anos, até a morte dele, em 2012. A filha Mariana foi a primeira ouvinte — e a inspiração — das histórias que a mãe inventava em casa, inclusive quando a menina pedia o cinzeiro em vez do Patinho Feio.

Entre 1957 e 1972 foi orientadora educacional do Colégio Rio Branco. Nessa época começou a escrever sobre educação para a revista Cláudia. O texto claro chamou a atenção de Sonia Robato, que dirigia a Recreio, da editora Abril. O desafio da sala trancada virou método: Ruth Rocha publicou dezenas de narrativas na revista e, a partir de 1973, passou a trabalhar como editora e depois coordenadora do departamento de publicações infantojuvenis da Abril. O primeiro livro, Palavras, muitas palavras, saiu em 1976.

O que a literatura dela mudou na conversa com a criança

O estilo de Ruth Rocha é direto, coloquial e pouco disposto a sermão. Ela trata o leitor pequeno de igual para igual, com humor, invenção verbal e uma liberdade que, nos anos 1970, não era óbvia. Em plena ditadura, seus livros ousavam falar de poder, preconceito, escola e cotidiano sem abrir mão da fantasia. A criança deixa de ser figurante educável e vira alguém que pergunta, renomeia e desconfia.

Essa virada aparece com força em Marcelo, Marmelo, Martelo, o menino que recusa o nome pronto das coisas e transforma cadeira em “sentador”. Também está em O reizinho mandão, fábula em que o autoritarismo cala um reino até que uma criança lembre como se fala. Não é coincidência que as duas obras tenham sobrevivido ao tempo da escola: uma ensina que a língua é matéria viva; a outra, que mandar calar a boca tem preço.

A mesma inteligência atravessa títulos de alfabetização e convívio, como O menino que aprendeu a ver e Bom-dia, todas as cores!. No conjunto, a obra conversa com o que a literatura brasileira passou a exigir da infância: inteligência, humor e respeito. É o mesmo campo em que autores contemporâneos como Otávio Júnior seguem ampliando quem pode narrar o país para criança, agora a partir de outras geografias e outras infâncias.

Como a obra continua circulando

Ruth Rocha soma mais de duzentos títulos e traduziu cerca de cem obras infantojuvenis. Adaptou a Ilíada e a Odisseia de Homero para o leitor jovem. Em parceria com o artista Otávio Roth, fez a versão infantil da Declaração Universal dos Direitos Humanos, lançada na sede da ONU em Nova York, em 1988, e o livro Azul e lindo, Planeta Terra, nossa casa. Também assinou livros didáticos como Pessoinhas, com Anna Flora.

Em 2023, Marcelo, Marmelo, Martelo ganhou série na Paramount+ e na Nickelodeon, a primeira adaptação audiovisual autorizada pela autora, que fez uma participação especial. No ano seguinte, a família e a Salamandra apostaram na internacionalização: o clássico chegou aos Estados Unidos como Marcelo Martello Marshmallow e também foi publicado em Portugal. Em entrevista, a escritora lembrou que o Círculo do Livro da Abril vendeu 800 mil exemplares de Marcelo em seis meses, depois de uma estreia mais discreta em banca. Meio século depois, ainda é o livro que ela mais vende.

Prêmios, academia e o lugar público de Ruth Rocha

A carreira pública não se resume a volume de títulos. Ruth Rocha recebeu a Comenda da Ordem do Mérito Cultural em 1998, concedida pelo então presidente Fernando Henrique Cardoso. Acumula oito prêmios Jabuti da Câmara Brasileira do Livro, reconhecimentos da Academia Brasileira de Letras, da Associação Paulista dos Críticos de Arte e da Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil. O reizinho mandão entrou na Lista de Honra do prêmio internacional Hans Christian Andersen. Desde 2008, ocupa uma cadeira na Academia Paulista de Letras.

Há bibliotecas com o nome dela em São Paulo, no Rio de Janeiro e em Brasília. Em 2026, o Itaú Cultural dedicou a ela a 73ª Ocupação, a primeira da série centrada numa escritora de literatura infantil. A escola de samba Mancha Verde anunciou a autora como enredo do Carnaval de São Paulo em 2027. Tudo isso confirma o que as salas de aula já sabiam: Ruth Rocha deixou de ser só “a tia dos livros da escola” e passou a ser lida como uma das construtoras da literatura infantil brasileira contemporânea, ao lado de nomes como Ana Maria Machado, Lygia Bojunga e Eva Furnari.

  • Marcelo, Marmelo, Martelo (1976): o menino que inventa nomes e virou o cartão de visitas da autora.
  • O reizinho mandão: fábula de poder, silêncio e democracia, ainda usada em sala de aula.
  • Palavras, muitas palavras: o livro de estreia, meio cartilha, meio poema.
  • O menino que aprendeu a ver: a alfabetização como descoberta do mundo escrito na rua.
  • Bom-dia, todas as cores!: o camaleão que tenta agradar a todos e precisa escolher a própria cor.

O site oficial, ruthrocha.com.br, reúne biografia, catálogo e o mundo dos personagens. Quem chega pela primeira vez pode começar por Marcelo e seguir para o reizinho, sem transformar a leitura numa obrigação escolar. A força da autora está menos em ensinar uma moral e mais em devolver à criança o direito de perguntar, rir e discordar. Como ela mesma escreveu, toda criança do mundo mora no coração dela. A frase só funciona porque o resto da obra cumpre o combinado.

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Projetos de Ruth Rocha

Marcelo Marmelo Martelo
Marcelo Marmelo Martelo
Livro infantil de Ruth Rocha em que Marcelo inventa nomes para o mundo. Clássico escolar com as histórias de Teresinha, Gabriela e o dono da bola.
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O Reizinho Mandão
O Reizinho Mandão
Fábula de Ruth Rocha sobre um rei mimado que cala o reino. Livro clássico sobre poder, liberdade e o direito de falar.
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Palavras Muitas Palavras
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Livro de estreia de Ruth Rocha: cartilha poética que ensina a ler brincando com rimas, letras e o prazer da língua.
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O Menino que Aprendeu a Ver
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Livro de Ruth Rocha sobre Joãozinho, que descobre as letras no mundo: outdoors, placas e jornais deixam de ser desenho sem sentido.
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Bom-dia Todas as Cores!
Bom-dia Todas as Cores!
Livro de Ruth Rocha sobre um camaleão que muda de cor para agradar a todos e descobre que não dá para ser todas as cores ao mesmo tempo.
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