Contexto e proposta de Palavras Muitas Palavras
Palavras, muitas palavras é o primeiro livro de Ruth Rocha, publicado em 1976. Em vez de cartilha seca, a autora fez um livro de poemas que trata a alfabetização como brincadeira séria. Aprender a ler, diz o texto, pode ser tão legal quanto andar de bicicleta, brincar de boneca ou jogar bola. A proposta não é enganar a criança com didática disfarçada. É mostrar que palavra também é matéria de invenção.
Com ilustrações de Raul Fernandes, a edição da Salamandra reúne na mesma página vocábulos que começam com a mesma letra e descobre rimas entre eles. O resultado, como o site da autora descreve, parece flutuar um pouco acima da folha: malabares de som que não deixam a leitura cair no chão da obrigação. Um exemplo da própria obra: “C de casa, C de cola, de coruja e de cartola. C de cobra, e de chinelo, de camelo e de castelo.”
Esse livro antecipa o que Marcelo faria no mesmo ano com mais narrativa: a língua como território em que a criança pode entrar sem pedir licença. Aqui o jogo é mais gráfico e sonoro. Serve a leitores bem pequenos, em geral até 6 anos, e a adultos que queiram recuperar o prazer de ouvir palavra em voz alta. Não substitui o silabário da escola. Complementa, porque devolve ritmo, humor e imagem ao começo da leitura.
Para quem pesquisa a estreia de Ruth Rocha, este é o documento certo. Antes dele, a escritora já tinha publicado narrativas na revista Recreio, mas foi Palavras, muitas palavras que a levou da redação para o livro. O tom gracioso e coloquial que marcaria a carreira já está inteiro aqui: respeito à inteligência da criança, zero moralina e uma aposta clara na sonoridade do português brasileiro.
Vale a leitura em voz alta, em casa ou em sala. O livro pede ouvido tanto quanto olho. Quem o usa como primeiro encontro com a autora costuma seguir para Marcelo e para os títulos em que a invenção verbal vira personagem. Palavras, muitas palavras continua sendo o ponto de partida mais honesto: o livro em que Ruth Rocha declarou, em verso, de que lado da língua ela estava.





