Carimbê volta ao Capão Redondo vinte e cinco anos depois do romance que tornou Ferréz conhecido. A graphic novel de 2024, com arte de Doug Firmino e o subtítulo Uma História do Capão Pecado, não reedita o livro original: escolhe um homem que o próprio bairro mal nomeia. Carimbê é o pedreiro chamado quando o cano estoura, a luz acaba, o reboco cai. Sem rosto na conversa da comunidade, até a hora do conserto.
Na vida real, o personagem parte de Celso, amigo do autor — um desses “cabras” que Ferréz atendia no bar. Na ficção, a esperança de passar a noite com a mulher amada e o álcool como companheiro inseparável sustentam um homem à beira do abismo. Depois de uma briga no Rio de Janeiro, ele vai morar de favor na casa da irmã, no Capão. A brutalidade do cotidiano não precisa de tiroteio a cada página para pesar.
Por que é um projeto distinto
Quem espera a história de Rael em quadrinhos vai se frustrar. Carimbê é outra vida no mesmo mapa. O ganho está no desenho de Firmino — hachura densa, grotesco, detalhes de poste, cano, pombo, copo — e na decisão de Ferréz de narrar o invisível da quebrada, não o protagonista já consagrado. A Comix Zone fechou a edição em capa dura, verniz localizado, 152 páginas em preto e branco no papel pôlen. Recomendação etária: 18 anos.
O livro conversa com Capão Pecado do mesmo jeito que um conto posterior conversa com um romance de origem: mesmo território, outra voz. Ferréz disse à Agência Mural que revisitar esse universo foi também um acerto de contas afetivo com Celso. Isso não transforma a graphic novel em biografia. Transforma o “cabra” genérico em alguém com nome, vício, desejo e fim.
Leitura, público e o objeto
Doug Firmino, ilustrador e doutorando em artes visuais em Brasília, puxa a história para o sombrio e o forense: corpo, sujeira, fim. Não é quadrinho de super-herói da quebrada. É tragédia urbana em preto e branco, com acabamento de luxo que contrasta com a vida do personagem. A Amazon classifica o título em graphic novels literárias; a editora é a mesma Comix Zone de O demônio de Frankfurt, o que explica o capricho da capa dura.
- Graphic novel de Ferréz no universo Comix Zone, com Doug Firmino.
- Publicada em 22 de novembro de 2024; 152 páginas, capa dura.
- História adulta, sombria, sem pretensão didática sobre a periferia.
- Funciona sozinha; rende mais para quem já leu o romance de 2000.
Para quem comprar
Para leitor de quadrinho brasileiro que aguenta traço sujo e tema pesado. Para quem leu Capão Pecado e quer o bairro de novo, sem repetir Rael. Para quem acompanha a Comix Zone e o deslocamento de Ferréz do romance realista ao livro ilustrado — caminho que já aparecia em O demônio de Frankfurt e aqui se completa no formato HQ.
Não é adaptação escolar nem versão em imagens do clássico. É um homem invisível desenhado até doer. Se a pergunta for se vale ter os dois, a resposta é sim: o romance abre o mapa; Carimbê escolhe um canto que o mapa original mal nomeava. O item exato na Amazon é a edição Comix Zone em capa dura.




