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Ferréz

Reginaldo Ferreira da Silva

Nascimento: 1975 Zona Sul, São Paulo
Escritor do Capão Redondo, autor de Capão Pecado e referência da literatura marginal no Brasil. Também rapper, editor e fundador da 1DaSul.

Quando Ferréz lançou Capão Pecado, em 2000, o distrito do Capão Redondo já estava no título — e no ponto de vista. O que muita literatura brasileira tratava como paisagem de fundo virou o centro da narrativa: o português da rua, o emprego que não segura, o amigo que some, a ética instável de quem cresce onde a violência não é enredo, é clima.

Quem busca Ferréz hoje não procura só o autor de um romance famoso da periferia. Procura o escritor que, a partir da Zona Sul de São Paulo, ajudou a organizar uma geração da literatura marginal, manteve loja, editora e ONG no mesmo território das histórias e continuou publicando — do rap ao quadrinho — sem transformar o bairro em cartão-postal para quem lê de longe.

Quem é Ferréz

Ferréz é o nome literário de Reginaldo Ferreira da Silva, nascido em São Paulo em 29 de dezembro de 1975. Romancista, contista, poeta, rapper e empreendedor, ele cresceu no Valo Velho e no Capão Redondo e se tornou um dos nomes mais citados quando se fala em literatura feita à margem dos centros urbanos. A Enciclopédia Itaú Cultural o registra como escritor cuja obra e atuação pública giram em torno da periferia: tanto nos livros quanto na promoção de outros autores da quebrada.

Não é um perfil de quem “saiu” da periferia para depois descrevê-la. Ferréz escreveu de dentro, fundou o grupo 1DaSul no Capão Redondo, manteve a marca de roupas no mesmo circuito e, décadas depois, ainda trabalha a partir da Zona Sul e de Itapecerica da Serra. A literatura é o eixo; a loja, a ONG Interferência, o Selo Povo e a editora de quadrinhos Comix Zone fazem parte da mesma operação pública, não de um currículo paralelo desconectado.

Do Valo Velho ao primeiro livro

Antes de assinar com grandes editoras, Ferréz passou por ofícios comuns da adolescência periférica paulistana: vendeu vassoura na rua, foi balconista e chapeiro de fast-food, trabalhou como auxiliar de arquivo. A Enciclopédia Itaú Cultural descreve essa sequência sem enfeite — e ela importa porque a prosa dele não inventa o chão. Inventa personagens. O chão já estava lá.

O primeiro livro, o volume de poemas Fortaleza da Desilusão, saiu de forma independente em 1997, ainda marcado pelo contato com a poesia concreta. A divulgação era boca a boca; a Agência Mural registrou que os poemas chegaram a ser impressos em xerox no emprego da época. Dois anos depois veio o 1DaSul, grupo ligado ao hip-hop e a ações culturais no Capão Redondo. O romance que mudaria o alcance da assinatura só viria na virada do século.

Há um detalhe útil para quem chega agora: Ferréz não escreveu o Capão como quem descobre o bairro. Escreveu como quem já estava no bar, no corre e na conversa com os moradores enquanto o texto avançava. Em entrevista de 2025, ele descreveu o processo de Capão Pecado como uma construção com a comunidade — gente que se reconhecia nos trechos, e gente que o acusava de mentir. O critério dele era outro: o leitor da quebrada precisava identificar lugar, fala e dilema, o que faltava quando lia Dostoiévski ou Jorge Amado.

O que a literatura marginal mudou com ele

Capão Pecado narra a trajetória de Rael, adolescente do Capão Redondo que tenta manter emprego e conduta numa rede de amizades minada pela criminalidade. O triângulo com Paula, namorada do amigo Matcherros, empurra a trama para um desfecho seco. A sexta edição, pela Companhia de Bolso em 2020, veio revisada, com posfácio de Marcelino Freire. Vinte e cinco anos depois do lançamento, o próprio autor ainda discute o livro em escolas, feiras e entrevistas — e admite ter alterado trechos após críticas ao olhar masculino da primeira versão, escrita quando ele tinha pouco mais de vinte anos.

O romance entrou no mapa da literatura marginal ao lado de uma geração que ganhava espaço em coletâneas, saraus e na revista Caros Amigos, onde Ferréz foi cronista na primeira década dos anos 2000. Nomes como Alessandro Buzo, Allan da Rosa, Sacolinha e Sérgio Vaz circulam nesse mesmo recorte. O próprio Ferréz apontou Cidade de Deus, de Paulo Lins, como o choque que o fez escrever sobre o próprio bairro: pela primeira vez, via um livro “com mais a ver” com a vida que conhecia.

Essa escrita de dentro da cidade pobre tem parentesco, no Brasil, com a diarista da favela do Canindé. A diferença de gênero, época e forma não apaga o ponto comum: tanto Ferréz quanto Carolina Maria de Jesus recusam o papel de personagem descrita por alguém de fora. No Capão, o outro eixo cultural da mesma geografia é o rap. Não por acaso o distrito também é território de Mano Brown e dos Racionais MC's — Ferréz escreveu letras, cantou e lançou o disco Determinação em 2003, com participações de Chico César e Arnaldo Antunes.

  • Fortaleza da Desilusão (1997) — poesia independente, ponto de partida da assinatura pública.
  • Capão Pecado (2000) — romance que consolidou o nome e o recorte do Capão Redondo.
  • Manual prático do ódio (2003) — segundo romance, de um grupo que planeja um assalto como saída da pobreza.
  • Amanhecer Esmeralda (2005) — narrativa infantil sobre Manhã, menina negra da periferia.
  • Ninguém é inocente em São Paulo — contos e crônicas da mesma cidade partida.
  • O demônio de Frankfurt (2021) e Carimbê (2024) — a fase Comix Zone, entre romance ilustrado e graphic novel.

Loja, editora, ONG: o que ele construiu além do livro

Ferréz não separa literatura e sobrevivência econômica da quebrada. A marca 1DaSul, lançada em 1999, completa o circuito: bonés e peças produzidos com costureiras da região, loja de cultura urbana no Capão Redondo. A ONG Interferência trabalha com crianças da Zona Sul. O Selo Povo publicou autores independentes. Em 2019, a parceria com o canal Comix Zone virou editora de quadrinhos — da qual ele é sócio —, e dali saíram O demônio de Frankfurt, com ilustrações de Lourenço Mutarelli, e a graphic novel Carimbê, desenhada por Doug Firmino, uma história do “cabra” invisível que só é chamado quando o cano estoura.

Foi colunista da Caros Amigos por cerca de uma década e conselheiro editorial do Le Monde diplomatique Brasil. Em 2021, criou o podcast Avesso com os Estúdios Flow. As obras circularam em Portugal, Espanha, Itália, Alemanha, França, Inglaterra, Argentina e Estados Unidos, segundo as editoras que o publicam. Nada disso apaga o endereço: a Agência Mural o encontrou em 2025 no escritório de Itapecerica da Serra, com quadro de tarefas, caderno de bolso e a promessa de “continuar tumultuando” — inclusive com um livro de não-ficção sobre o que a literatura ensinou para montar empresa, e um romance ambientado em condomínio de classe média alta.

Por onde começar a ler Ferréz

Quem nunca leu, começa por Capão Pecado: é o livro que explica por que o nome ficou. Quem já conhece Rael e quer o recorte mais áspero do início dos anos 2000 segue para Manual prático do ódio, relançado pela Companhia das Letras em 2024. Para ver o autor longe do naturalismo direto da primeira fase, O demônio de Frankfurt mistura viagem, amizade e fábula na feira alemã. Carimbê devolve o Capão ao quadrinho, vinte e cinco anos depois do romance.

Acompanhar Ferréz hoje passa pelo Instagram @ferrezoficial, pelo canal no YouTube e pelas edições em circulação na Amazon e nas livrarias. A página de autor na Companhia das Letras e o verbete da Enciclopédia Itaú Cultural cruzam datas e títulos com mais frio. O resto — a loja, a editora, a ONG — continua no mesmo mapa da Zona Sul que ele recusou tratar como cenário.

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Projetos de Ferréz

Capão Pecado
Capão Pecado
Romance de Ferréz sobre Rael no Capão Redondo, marco da literatura marginal brasileira publicado em 2000 e relançado pela Companhia de Bolso.
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Manual prático do ódio
Manual prático do ódio
Segundo romance de Ferréz, de 2003, sobre um grupo da periferia paulistana que planeja um assalto. Edição da Companhia das Letras.
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O demônio de Frankfurt
O demônio de Frankfurt
Romance de Ferréz com ilustrações de Lourenço Mutarelli sobre dois escritores brasileiros na Feira do Livro de Frankfurt.
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Carimbê
Carimbê
Graphic novel de Ferréz e Doug Firmino sobre Carimbê, pedreiro invisível do Capão Redondo. Editora Comix Zone, 2024.
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