Manual prático do ódio entra no grupo que já cruzou a linha e tenta profissionalizar o crime. Se Capão Pecado acompanhou um rapaz que ainda tenta o caminho lícito, este romance olha para quem já decidiu o atalho. Lançado em 2003 e relançado pela Companhia das Letras em 2024, o segundo romance de Ferréz é menos um “manual” de ação do que um registro do pensamento de quem nasceu dentro da pobreza armada da São Paulo do início dos anos 2000.
Régis, Lúcio Fé, Neguinho da Mancha na Mão, Aninha, Celso Capeta e Mágico planejam o assalto a um banco como golpe definitivo contra a miséria. O assalto, porém, fica quase em segundo plano. Como escreve Heloisa Teixeira no texto desta edição, a trama real é a aprendizagem do ódio, do medo e do amor. O livro mergulha nos estados de espírito do grupo — o planejamento, a espera, o afeto torto, a certeza de que o golpe vai resolver o que o emprego nunca resolveu.
Por que reler agora
A edição de 2024 não vende o romance como retrato intocado. O texto de apresentação da Companhia das Letras o trata como documento de uma periferia urbana “muito diferente da de hoje” e, ao mesmo tempo, como convite para ver o que mudou e o que permanece. Vinte anos depois, o leitor não encontra um guia atualizado do crime paulistano. Encontra o clima de uma época: o início dos anos 2000, o rap ainda no centro da fala periférica, a cidade apodrecendo página a página, como Paulo Lins formulou ao comentar a obra.
Arnaldo Antunes descreveu o livro como “literalmente um romance de ação” que não para para descrever ambientes e, ainda assim, ergue cenas com nitidez de cinema. A observação vale como aviso de leitura: quem espera sociologia pausada vai esbarrar numa prosa veloz. Quem quer saber o que as personagens pensam enquanto apontam a arma encontra exatamente isso.
Público e limites
O romance é para leitor adulto, acostumado a violência explícita e a um humor seco que não pede desculpa. Não é livro para “entender o bandido” no sentido de campanha. Ferréz recusa a dicotomia fácil entre cidadão de bem e criminoso sem transformar isso em tese de defesa. A pobreza unida às armas aparece de dentro: o pensamento, não o espetáculo.
- Segundo romance de Ferréz, originalmente de 2003, agora em edição da Companhia das Letras.
- Prefácio de Heloisa Teixeira; 240 páginas na edição em papel.
- Grupo de protagonistas, não um herói solitário — o planejamento coletivo é o eixo.
- Leitura mais dura e coral do que Capão Pecado; não é continuação direta da história de Rael.
Como comprar e o que esperar da edição
A edição em circulação na Amazon é a da Companhia das Letras, com arte de capa de Oga Mendonça. Capa comum e Kindle existem; o conteúdo é o mesmo romance. Não se trata de adaptação escolar nem de versão suavizada. Quem já leu Capão Pecado encontra aqui o autor indo mais fundo no mesmo recorte — a periferia de São Paulo vista por quem não descreve o crime de camarote.
Vale o par com o primeiro romance, não a troca. Capão Pecado ainda é o retrato de quem tenta sair. Manual prático do ódio é o retrato de quem já decidiu que sair pelo trabalho não vai acontecer a tempo.




