O demônio de Frankfurt começa com um fato seco: o governo manda setenta e oito autores para representar o Brasil na Feira do Livro de Frankfurt. Dois deles, já problemáticos, decidem outra jornada: ir atrás do Demônio. Só um volta. O demônio de Frankfurt, romance de Ferréz publicado em 2021 pela Comix Zone, usa a viagem literária oficial como desculpa para uma fábula de amizade, excesso e memória — ilustrada por Lourenço Mutarelli.
Não é o Capão em versão alemã. É o autor da literatura marginal deslocado para o circuito internacional do livro, com o parceiro de estrada (Lou) e a tentação de furar o roteiro institucional. A crítica e os leitores da edição apontam o óbvio que a orelha às vezes esconde: o pano de fundo é Frankfurt, mas o assunto é a relação entre os dois homens e o que a fama literária não resolve.
O que há de diferente nesta obra
Ferréz já tinha romances, contos, crônica e infantil. Aqui ele mistura ficção e matéria da viagem, com o desenho de Mutarelli atravessando o texto. A edição da Comix Zone aposta no objeto: capa dura, relevo, 144 páginas em papel de alta gramatura, caderno de extras com desenhos de Andrei Bressan, Danilo Beyruth, Doug Firmino, Gabriel Bá, João Pinheiro e Marcelo d'Salete. É livro para ler e para ficar na estante.
Quem conhece só Capão Pecado pode estranhar o tom. A prosa continua direta, mas o recorte muda: hotéis, feira, deslocamento, a comédia sombria de dois escritores brasileiros à solta na Alemanha. O “demônio” do título não é metáfora preguiçosa de mercado editorial. É o mote de uma busca que o próprio enredo trata como jornada paralela à programação oficial da feira — a mesma Feira de Frankfurt em que Ferréz esteve, de fato, na delegação brasileira de 2013.
Público, edição e o que não esperar
A ficha da Amazon indica 16 anos. A leitura é adulta pelo tema e pelo humor, não necessariamente pela gore da primeira fase. Não há aqui o mosaico de assaltos do Manual prático do ódio nem o destino de Rael. Há duas vozes em deslocamento, o cansaço da agenda oficial e a tentação de abandoná-la. Mutarelli não ilustra “cenas de ação”: o traço entra como temperatura, mais próximo do pesadelo do que do storyboard.
- Romance de 2021, editora Comix Zone, com ilustrações de Lourenço Mutarelli.
- Edição em capa dura; existe também Kindle.
- Indicada a partir de 16 anos na ficha da Amazon.
- Objeto de colecionador tanto quanto narrativa — o acabamento faz parte da proposta.
Para quem faz sentido
Para quem já leu Ferréz e quer vê-lo fora do naturalismo da primeira fase. Para leitor de Mutarelli que acompanha o desenho como linguagem, não como enfeite. Para quem se interessa pelo contraponto: o escritor da Zona Sul no palco mais protocolar do mercado mundial do livro, recusando o papel de embaixador bem-comportado.
Não substitui Capão Pecado nem Manual prático do ódio. Complementa. Se a pergunta for como Ferréz escreve depois da consagração e da feira internacional, este é o volume em que a resposta deixa de ser sociologia da quebrada e vira fábula de estrada — ainda assim, com a mesma recusa de falar bonito demais sobre o próprio mito. A compra mais estável hoje é a edição Comix Zone em capa dura, disponível na Amazon.




