Contexto e proposta de Coisias reunidas
Coisias reunidas junta, num só volume, a poesia visual que Philadelpho Menezes espalhou em livros curtos, mostras e objetos ao longo de duas décadas. A edição é de Ana Aly, artista plástica e viúva, e saiu em 2019 pela EDUC e pela Laranja Original. O ISBN 9788528306316 corresponde à edição da EDUC, com cerca de 164 páginas. Não é ensaio. É a poesia.
O título já avisa o método. Coisia não é erro de grafia: é o achado, a coisa mínima em que imagem e som verbal se encontram e produzem sentido. A apresentação da casa editorial repete a definição que ele usava. Poesia intersignos, outro nome para a poesia-montagem, nasce de encontros curtos entre imagem e sonoridade, com humor seco, no alvo. Há filiação à poesia concreta, mas o gesto não é o de Augusto de Campos, Haroldo de Campos ou Décio Pignatari repetido por um discípulo. É uma versão própria, reconhecível pelo corte e pela piada visual.
O livro importa porque a obra poética de Menezes ficou muito tempo fora das prateleiras correntes. Os títulos dos anos 1980, como 4 achados construídos, Poemas 1980-1982 e Demolições (ou poemas aritméticos), são de circulação estreita. Quem quer ver os poemas, e não só a teoria de Poética e Visualidade ou de A Crise do Passado, encontra nesta reunião o conjunto visual. A apresentação da Laranja Original fala em poemas visuais reunidos e numa homenagem póstuma a quem morreu aos quarenta anos, em 2000, num acidente de carro. Ana Aly já tinha feito esse trabalho de guarda antes: selecionou obras para a mostra de 2002 no Memorial da América Latina e curou, em 2014, a retrospectiva Goma de mascarar sabor mental na Casa das Rosas.
O leitor dessa edição é quem acompanha poesia visual brasileira e quem quer ver o poema, não apenas o argumento sobre o poema. Há humor, condensação e uma recusa de verso confessional. Não espere narrativa nem biografia disfarçada de poema. Espere signo: letra, figura e som curto trabalhando juntos.
O volume não inclui a antologia crítica Poesia Sonora nem o CD-ROM Interpoesia. Também não substitui os ensaios. Cumpre outra função. Devolve à mão a poesia que justificou a teoria. A Martins Fontes Paulista vende a edição da EDUC. É o caminho público mais estável para quem procura o livro novo, não o sebo dos títulos antigos.



