Imagem de capa do perfil de Philadelpho Menezes
Foto de perfil de Philadelpho Menezes

Philadelpho Menezes

Philadelpho Menezes Neto

Nascimento: 1960 São Paulo, SP
Ver projetos (3)
Poeta, tradutor e ensaísta paulistano. Formulou a poesia intersignos e levou a poesia visual e sonora do impresso ao som e ao digital.

Philadelpho Menezes publicou o primeiro livro aos vinte anos e, dali em diante, tratou o poema como encontro de signos, não como desabafo. Em 4 achados construídos, de 1980, a página já pedia olho e ouvido ao mesmo tempo. Quem procura o nome hoje quase sempre quer saber o que ele chamou de poesia intersignos, em que ponto essa proposta se afasta da poesia concreta e por que a carreira, cortada aos quarenta anos, ainda aparece quando se estuda poesia visual, poesia sonora e poema em suporte digital.

O nome completo é Philadelpho Menezes Neto. Nasceu em São Paulo em 21 de junho de 1960 e morreu em 23 de julho de 2000, num acidente de carro. Foi poeta, tradutor, ensaísta e professor do programa de pós-graduação em Comunicação e Semiótica da PUC-SP. A vida pública dele não cabe na figura do autor de versos para recitar na escola. Ele organizou mostras, editou antologias, defendeu tese e ainda fez o poema caber em CD e em CD-ROM.

A casa, o Direito e a semiótica

Ele cresceu numa família em que poesia visual e música não eram visita de fim de semana. O pai, Florivaldo Menezes, nascido em 1931, era poeta visual próximo do círculo da poesia concreta. O irmão mais novo, Flo Menezes, tornou-se compositor de música eletroacústica. Em depoimento publicado pelo Centro Cultural São Paulo, Flo lembra as discussões com o irmão: a peça eletroacústica calcada na palavra falada não era poesia sonora, e Philadelpho, introdutor dessa poesia no Brasil, tinha clareza dessa diferença. A Enciclopédia Itaú Cultural registra os dois vínculos no verbete do compositor.

A formação começou por um caminho que não parece o óbvio para um poeta visual. Uma dissertação de 2024 da própria PUC-SP, dedicada à poesia sonora dele, registra que Philadelpho se formou em Direito na Faculdade de Direito da USP, a São Francisco, e logo depois entrou no Programa de Estudos Pós-Graduados em Comunicação e Semiótica. No começo dos anos 1980, esse programa reunia professores como Décio Pignatari e Haroldo de Campos. O mestrado virou livro em 1991: Poética e Visualidade: uma trajetória da poesia brasileira contemporânea, pela Editora da Unicamp. O doutorado, orientado por Lúcia Santaella, foi defendido em junho de 1991. Parte do doutorado foi feita na Universidade de Bolonha, em 1990. O livro que sai dessa tese é A Crise do Passado: modernidade, vanguarda, metamodernidade, publicado pela Experimento em 1994, com segunda edição em 2001.

Em 1994, a San Diego State University Press lançou a versão em inglês do estudo de visualidade, Poetics and Visuality, traduzida pelo poeta Harry Polkinhorn. O volume circulou fora do Brasil como mapa da poesia experimental daqui, do espacialismo ao que Menezes chamava de poesia intersignos. Na PUC-SP ele passou a dar aula no mesmo programa em que tinha estudado. Wilton Azevedo, parceiro do CD-ROM Interpoesia, registrou que, no começo dos anos 1990, Philadelpho assumiu a direção da EDUC, a editora da universidade, e organizou na instituição um arquivo de poesia visual e sonora. O registro de bolsas na FAPESP descreve, no mesmo programa, um Arquivo de Poesia Experimental com pôsteres, livros, catálogos, objetos, discos, fitas, vídeos e CD-ROMs.

O que ele chamava de poesia intersignos

A fórmula que ele repetia é direta. Na poesia intersignos, signos visuais e verbais, cada um com carga semântica própria, trabalham juntos para produzir o sentido do poema. A imagem não entra como arabesco, moldura ou ilustração educada do verso. Ela pede decifração. Desenho, foto, número, rabisco, gráfico e cor participam da leitura tanto quanto a palavra.

Em Poética e Visualidade ele separa três procedimentos que ajudam a ler essa produção. No poema-colagem, a sintaxe verbal se desmonta e o visual predomina. No poema-embalagem, o visual se submete à palavra. No poema-montagem, verbal e sonoro se combinam para reciclar o significado dentro da própria sintaxe do poema. Não é um rótulo para qualquer cartaz com letra bonita. É um critério de leitura.

A diferença em relação à poesia concreta, da qual ele vinha e com a qual discutia, está nesse ponto. O concretismo paulista, articulado por Augusto de Campos, Haroldo de Campos e Décio Pignatari a partir de 1956, já tinha tirado o poema da linha corrida e colocado a forma gráfica no centro. Menezes não negava essa lição. Queria um passo em que a imagem deixasse de ser só a forma gráfica do texto e passasse a significar por conta própria, em intersemiose com o verbal. Por isso falava em intersignos, e não apenas em poema visual.

As mostras serviram para tornar essa distinção pública. Em 1985, no Centro Cultural São Paulo, ele organizou a exposição Poesia Intersignos, com pouco mais de três dezenas de poemas visuais de poetas brasileiros. Em 1988, no mesmo centro, veio a 1ª Mostra Internacional de Poesia Visual de São Paulo, entre 30 de junho e 14 de agosto. A Enciclopédia Itaú Cultural também associa o nome dele à 17ª Bienal de São Paulo, em 1983, sem transformar essa presença em cargo de curador-geral. O trabalho de seleção não era apêndice da obra. Era parte do método. Ele delimitava o que contava como poema e o que era só composição gráfica.

Da voz ao CD-ROM

A outra frente é a voz. Em 1992, pela EDUC, ele organizou Poesia Sonora: poéticas experimentais da voz no século XX, antologia de textos críticos e manifestos que vai do fonetismo histórico a práticas contemporâneas, com ensaio de Paul Zumthor. A apresentação da editora avisa o óbvio que ainda se confunde: poesia sonora fica entre literatura e música, entre fala e canto, e não se reduz a nenhum dos dois. No Brasil, esse livro funciona como porta de entrada para um campo que já tinha décadas na Europa e nos Estados Unidos.

Ele não ficou no ensaio. Em 1996 saiu o CD Poesia Sonora: do fonetismo às poéticas contemporâneas da voz, em que peças como “Céu da boca”, “Poema não-música” e “Poema sonoro para sarau” passaram a ser lidas em estudos sobre performance e voz. Com Wilton Azevedo, produziu o CD-ROM Interpoesia: poesia hipermídia interativa, desenvolvido entre 1997 e 1998 na PUC-SP e na Universidade Presbiteriana Mackenzie. Não era texto digitado com trilha de fundo. Era poema em que palavra, imagem, som, movimento e direção de leitura mudavam juntos.

Em 1998, no Paço das Artes, ele curou Intersignos: do impresso ao sonoro e ao digital. Uma foto dessa mostra, com legenda que o nomeia ao lado de Clemente Padin, Enzo Minarelli e Ana Aly, registra o encontro: poetas visuais e sonoros em volta de uma mesa, não um autor isolado no estúdio. Na Itália, colaborou com o projeto de net-poetry Karenina.it, de Caterina Davinio. No Itaú Cultural, organizou a sala especial de poesia sonora do evento Arte Tecnologia. O percurso impresso, sonoro e digital não é frase de orelha. São três suportes que ele chegou a ocupar em vida. Organizou ainda Signos Plurais: mídia, arte e cotidiano na globalização (Experimento, 1997) e publicou Roteiro de leitura: poesia concreta e visual pela Ática, em 1998.

O que Ana Aly segurou depois do acidente

Philadelpho morreu aos quarenta anos. O acidente de 23 de julho de 2000 cortou uma produção que ainda estava no meio do salto digital. Quem segurou a obra pública foi Ana Aly, artista plástica e viúva. Em 2002, o projeto Poetas na Biblioteca, no Memorial da América Latina, expôs trabalhos selecionados por ela. A Folha de S.Paulo registrou o evento em 13 de novembro daquele ano. Em 2014, a Casa das Rosas recebeu a retrospectiva Goma de mascarar sabor mental, também sob curadoria de Ana Aly. O título retoma uma peça visual de 1980, Clichetes, que a Enciclopédia Itaú Cultural guarda no verbete dele.

Em 2019, Ana Aly editou Coisias reunidas, pela EDUC e pela Laranja Original. O volume junta a poesia visual que ele tinha espalhado em livros curtos, mostras e objetos. A apresentação da casa editorial explica o apelido que ele dava ao próprio método: poesia que nasce de achados, de encontros curtos entre imagem e sonoridade verbal, com humor seco e marca de quem veio da poesia concreta sem repetir o gesto dos mais velhos.

A lista útil, para quem chega pelo nome e quer saber por onde começar, cabe em poucos títulos:

  • 4 achados construídos (1980), Poemas 1980-1982 (1984) e Demolições (ou poemas aritméticos) (1988), a poesia visual dos anos de formação.
  • Poética e Visualidade (Editora da Unicamp, 1991) e A Crise do Passado (Experimento, 1994; segunda edição em 2001), os dois ensaios que sustentam a teoria.
  • Poesia Sonora (EDUC, 1992), o CD de 1996 e o CD-ROM Interpoesia, com Wilton Azevedo, para quem quer a voz e a hipermídia.
  • Coisias reunidas (2019), a reunião póstuma editada por Ana Aly.

Não há site pessoal nem rede social para consultar. Ele morreu antes dessa camada da vida pública. O que resta de canal está nas instituições: o verbete da Enciclopédia Itaú Cultural, a página do Electronic Poetry Center, os livros ainda encontráveis em sebo e na EDUC, e o arquivo de quem estuda poesia experimental dentro da literatura brasileira do fim do século XX. O nome continua sendo buscado por um motivo concreto. Ele deu critério para ler um poema em que a figura não ilustra a frase, e deixou, em livro, CD e CD-ROM, o teste desse critério.

O que você acha desta Autoridade?

Qual foi a sua experiência com Philadelpho Menezes? Os conteúdos, métodos ou serviços realmente entregam valor? Deixe sua avaliação sincera para ajudar quem vem depois.

Projetos de Philadelpho Menezes

Poesia Sonora
Poesia Sonora
Antologia organizada por Philadelpho Menezes em 1992, pela EDUC, com manifestos e ensaios sobre a voz poética no século XX.
2100%
00%
Coisias reunidas
Coisias reunidas
Reunião póstuma da poesia visual de Philadelpho Menezes, editada por Ana Aly em 2019, pela EDUC e pela Laranja Original.
2100%
00%
Poética e Visualidade
Poética e Visualidade
Ensaio de 1991, pela Editora da Unicamp, em que Philadelpho Menezes percorre a poesia experimental brasileira até a poesia intersignos.
1100%
00%