Confissões de um poeta é o livro em que Lêdo Ivo fala de si sem virar autoajuda de escritor. Memória da infância em Maceió, da vida adulta no Rio e dos encontros com a literatura brasileira do século XX. A edição da Topbooks, em parceria com a Academia Brasileira de Letras, saiu revista nos 80 anos do autor e traz caderno de fotos do arquivo pessoal.
Ivan Junqueira, na apresentação, destaca a nitidez das lembranças da infância alagoana: episódios contados com detalhe, lirismo e malícia. A vida adulta entra no mesmo tom. Nada de confissão piegas. Há olhar de cronista — o mendigo no Central Park, o cego em Chicago, os bêbados da Bowery, a gaivota, o louva-a-deus entre a porta e o elevador.
O que o leitor encontra
Primeiro, Maceió. Não a cidade turística: a infância de quem depois faria dessa geografia romance e poema. Depois, a vida literária. Os capítulos passam por encontros com Érico Veríssimo, Graciliano Ramos, José Lins do Rego, João Guimarães Rosa, Augusto Frederico Schmidt, Jorge de Lima, João Cabral de Melo Neto, Manuel Bandeira, Mário de Andrade e Lúcio Cardoso. Há seções dedicadas a Breno Accioly e Oswald de Andrade.
O tom é cáustico. Lêdo Ivo não escreve para consagrar colegas nem para se desculpar. Comenta modernistas, lê Graciliano, cita Montaigne. A memória vira ensaio sem perder o caso concreto. Quem busca fofoca de bastidor acadêmico se decepciona; quem busca um poeta que pensa em prosa, não.
- Primeira edição: 1979, Difusão Europeia do Livro.
- Esta edição: Topbooks / ABL, revista, 392 páginas, com fotos.
- Gênero: memória e autorretrato intelectual, não romance.
- Companheiro de prateleira: O aluno relapso, memória posterior, de 1991.
Para quem faz sentido
Para quem já leu Ninho de cobras e quer a infância que alimenta aquela Maceió. Para quem lê biografia de escritor brasileiro e prefere a voz do próprio autor à ficha. Para o leitor de João Cabral, José Lins do Rego ou Guimarães Rosa que queira o retrato de perto, com ressalva de que é retrato de Lêdo, não ata notarial.
Não é ponto de partida absoluto. Sem um mínimo de mapa da literatura brasileira do século XX, alguns nomes passam como lista. Com esse mapa, o livro vira conversa. A edição traz o caderno fotográfico: rosto, família, cena pública. Ajuda a ligar o acadêmico ao menino da laguna.
O que o livro não é
Não é biografia completa até 2012: a matéria central é anterior, embora a edição de 2004 reorganize o texto na altura dos 80 anos. Não substitui a poesia nem o romance. E não deve ser lido como fonte única de datas — para posse, prêmios e bibliografia, a página da ABL continua sendo o chão institucional.




