Quem chega a Lêdo Ivo pelo verbete da Academia Brasileira de Letras encontra o imortal da cadeira 10. Quem chega pelo romance encontra uma raposa no centro de Maceió e uma cidade que fofoca, mata e esconde. Os dois retratos falam do mesmo homem: poeta alagoano que carregou a laguna natal como clima, mesmo depois de virar jornalista no Rio, bacharel que nunca advogou e tradutor de Rimbaud.
Nasceu em 18 de fevereiro de 1924, em Maceió, e morreu em 23 de dezembro de 2012, em Sevilha, aos 88 anos, de infarto, durante uma viagem em família. Publicou poesia, romance, conto, crônica, ensaio, memória e tradução. A obra que o leitor mais procura hoje é Ninho de cobras. A que a crítica costuma apontar como cume poético é Finisterra, Prêmio Jabuti de 1973.
Quem foi Lêdo Ivo
Lêdo Ivo foi poeta, romancista, contista, cronista, ensaísta, tradutor e jornalista. Filho de Floriano Ivo e Eurídice Plácido de Araújo Ivo, casou-se em 1945 com Maria Lêda Sarmento de Medeiros Ivo (1923–2004). O casal teve três filhos: Patrícia, Maria da Graça e Gonçalo, este último pintor radicado na Espanha.
Estreou em 1944 com As imaginações. No ano seguinte, Ode e elegia recebeu o Prêmio Olavo Bilac da Academia Brasileira de Letras. Formou-se em Direito pela Faculdade Nacional de Direito da Universidade do Brasil em 1949 e não exerceu a advocacia: ficou na imprensa carioca e na literatura. Essa escolha importa. O jornalista que colaborava em suplementos literários e o poeta que renovava o soneto são a mesma pessoa, não duas carreiras paralelas.
Em 13 de novembro de 1986 foi eleito para a cadeira 10 da Academia Brasileira de Letras, na sucessão de Orígenes Lessa. Tomou posse em 7 de abril de 1987, recebido por Dom Marcos Barbosa. Depois recebeu os acadêmicos Geraldo França de Lima, Nélida Piñon e Sábato Magaldi. Foi também sócio da Academia Alagoana de Letras.
De Maceió ao Recife, do Recife ao Rio
Fez o primário e o secundário na cidade natal. Em 1940 transferiu-se para o Recife, período curto e decisivo. Ali circulou no grupo em torno do pintor Vicente do Rego Monteiro e do ensaísta Willy Levin, que apresentavam o surrealismo europeu a poetas jovens — entre eles Lêdo Ivo e João Cabral de Melo Neto. Em 1941 participou do I Congresso de Poesia do Recife.
Em 1943 mudou-se para o Rio de Janeiro. A capital virou redação, editora e palco. A laguna, o mormaço e o rumor de Maceió, porém, continuaram a entrar no verso e na prosa. Não como saudade decorativa: como geografia moral. Quem lê Ninho de cobras ou Finisterra percebe que Alagoas não é pano de fundo. É o chão onde a violência, o calor e a fofoca se organizam em linguagem.
Entre 1953 e 1954 viveu em Paris. A temporada aparece em Um brasileiro em Paris e O rei da Europa, publicados juntos em 1955. Em 1963, a convite do governo norte-americano, passou dois meses nos Estados Unidos, falando em universidades. O livro Estação central, de 1964, reserva uma seção inteira à América do consumo. A viagem não o transformou em cronista de hotel; deu-lhe contraste para voltar, mais tarde, à cidade natal com outro olhar.
A Geração de 45 e o que o rótulo não cobre
A crítica costuma situá-lo na Geração de 45, grupo que reviu o modernismo de 1922 e revalorizou formas fixas. No Rio, participou da Revista Orfeu. Em 1948, João Cabral imprimiu em Barcelona, na prensa manual do selo O Livro Inconsútil, a primeira edição de Acontecimento do soneto — título sugerido pelo próprio Cabral a partir de um verso do livro.
O rótulo, no entanto, aperta. Lêdo Ivo praticou o verso longo quando a geração pedia contenção. Ivan Junqueira, no prefácio da Poesia completa, insistiu nisso: a obra ultrapassa o programa da turma. Houve conferência no Museu de Arte Moderna de São Paulo, em 1949, intitulada justamente “A geração de 45”. O nome ficou. A poesia, não.
- As imaginações (1944) — estreia poética, ainda no calor da juventude recifense e carioca.
- Acontecimento do soneto (1948) — marco formal, impresso por João Cabral em Barcelona.
- As alianças (1947) — primeiro romance, Prêmio da Fundação Graça Aranha.
- Finisterra (1972) — livro de poesia com Jabuti, Pen Clube e prêmio da Fundação Cultural do Distrito Federal.
- Ninho de cobras (1973) — romance de Maceió, Prêmio Walmap, depois de duas editoras recusarem o original.
Traduziu Jane Austen (A abadia de Northanger), Maupassant, Dostoiévski (O adolescente) e, com introdução e notas, Rimbaud: Uma temporada no inferno e Iluminações. A tradução não é apêndice. É o mesmo ouvido de poeta trabalhando em outra língua.
Ninho de cobras, Finisterra e a volta a Alagoas
Na década de 1970 a terra natal volta com força. Finisterra e Ninho de cobras não são livros “regionais” no sentido de cor local. São indagação social e metafísica a partir de Maceió: a laguna, o rumor, a raposa morta no centro, o sindicato da morte, a cidade que se pretende civilizada e vive de segredo.
Ninho de cobras se passa numa Maceió das décadas de 1930 e 1940. O narrador mistura a aventura do animal com a crônica da capital. Duas editoras recusaram o original; o Prêmio Walmap veio em seguida. Edições posteriores, inclusive a da Imprensa Oficial Graciliano Ramos, devolveram o livro ao circuito. O detalhe da leitura — a raposa, o suicídio suspeito, a cidade como personagem — cabe na página do romance ligada a este perfil.
Há outros romances: O caminho sem aventura, O sobrinho do general, A morte do Brasil. Nenhum repetiu o impacto de Ninho de cobras. Na poesia, o caminho é mais longo: de Ode ao crepúsculo e Cântico (este dedicado a Maria Lêda) até A noite misteriosa, Curral de peixe, O rumor da noite e Plenilúnio.
ABL, prêmios e o arquivo no IMS
Além do Olavo Bilac e do Jabuti, acumulou o Prêmio Carlos de Laet (A cidade e os dias), o Mário de Andrade da Academia Brasiliense de Letras (conjunto da obra, 1982), o Nacional de Ensaio do INL por A ética da aventura, o Troféu Juca Pato de Intelectual do Ano (1990), o Prêmio de Poesia del Mundo Latino Victor Sandoval (México, 2008), o Casa de las Américas por Réquiem (2009) e o Rosalía de Castro do PEN da Galícia (2010). Em 2011, em León, na Espanha, recebeu o Prêmio Leteo, então inédito para um escritor de língua portuguesa. O júri, de jovens escritores, premiava obra que não se tivesse rendido ao mercado.
Em 1993, o presidente Itamar Franco o admitiu na Ordem do Mérito Militar no grau de Oficial. Recebeu ainda a Ordem do Mérito dos Palmares (Grã-Cruz), a Ordem do Rio Branco (Comendador) e o título de doutor honoris causa da Universidade Federal de Alagoas.
Em 2004, aos 80 anos, a Topbooks lançou a Poesia completa — 1940-2004, com prefácio de Ivan Junqueira, e reeditou Confissões de um poeta em parceria com a ABL. Em 2006 doou o acervo pessoal ao Instituto Moreira Salles: biblioteca, correspondência, recortes, documentos e centenas de fotografias. O IMS publicou em 2007 E agora adeus, seleção de cartas que lhe foram enviadas. Depois da morte de Maria Lêda, escreveu o poema longo Réquiem, com pinturas do filho Gonçalo.
A morte, em Sevilha, foi súbita: passou mal num restaurante, foi atendido no hotel e não chegou ao hospital. Estava com o filho Gonçalo. A presidente da ABL, Ana Maria Machado, mandou hastear a bandeira a meio mastro. As cinzas foram destinadas ao Mausoléu da Academia, no Cemitério São João Batista, no Rio. Deixou inéditos no Brasil volumes que saíram primeiro na Espanha, entre eles Mormaço e Aurora.
Como começar a ler Lêdo Ivo
Há três portas honestas. A primeira é o romance: Ninho de cobras entrega a Maceió inventada e a prosa que mistura crônica, alegoria e violência. A segunda é a Poesia completa da Topbooks, que reúne de As imaginações a Plenilúnio e mostra por que João Cabral o tinha em alta conta. A terceira é Confissões de um poeta, memória cáustica da infância alagoana e da vida literária brasileira — com encontros que passam por Graciliano Ramos, José Lins do Rego, João Guimarães Rosa e o próprio João Cabral.
Quem quiser o conto em dose curta encontra Um domingo perdido, treze narrativas pela Global. Quem quiser o cronista da cidade, A cidade e os dias. No mapa da literatura brasileira do século XX, Lêdo Ivo ocupa um lugar menos escolar que o de alguns contemporâneos e mais contínuo do que o rótulo da Geração de 45 sugere. A Academia Brasileira de Letras, o Instituto Moreira Salles e a Enciclopédia Itaú Cultural mantêm verbetes e acervo para cruzar datas, posses e títulos. Ele também dedicou um ensaio a João do Rio, outro flâneur de cidade que a literatura brasileira insiste em reler.
Perguntas frequentes
Lêdo Ivo é da Geração de 45?
Sim, pela estreia e pelo convívio. Não, se o rótulo servir para reduzir a obra a soneto e revisão do modernismo. O verso longo, o romance de Maceió e a memória posterior escapam do programa da turma.
Qual é o livro mais conhecido?
Em ficção, Ninho de cobras. Em poesia, Finisterra e, para o conjunto, a Poesia completa de 2004. A busca escolar ainda é menor que a de alguns contemporâneos; a leitura adulta costuma começar pelo romance.
Onde está o acervo?
No Instituto Moreira Salles, doado em 2006. Há correspondência, fotografias, recortes e biblioteca. A biografia institucional está na Academia Brasileira de Letras.
Ele foi só poeta?
Não. Foi jornalista de redação, romancista, cronista, ensaísta e tradutor. A página da ABL e o verbete da Enciclopédia Itaú Cultural listam os gêneros sem hierarquia falsa: a poesia veio primeiro, a prosa sustentou a fama.





