Contos de futebol numera as histórias como se numerava camisa: de um a onze. Aldyr Garcia Schlee, torcedor do Brasil de Pelotas e da Celeste, não escreveu uma história da seleção nem um memorial da camisa amarela que ele mesmo desenhou em 1953. O livro olha para o clube pequeno, para o campo de fronteira e para o lado uruguaio com o mesmo peso do lado brasileiro.
A estreia foi em Montevidéu, em 1995, nas Ediciones de la Banda Oriental, com o título Cuentos de fútbol. A edição em português, Contos de futebol, saiu em 1997 pela Mercado Aberto, de Porto Alegre. Uma edição posterior da Ardotempo, anunciada como segunda, traz o ISBN 9788562984174 e cerca de 190 páginas. É dessa prateleira que sai o exemplar físico mais fácil de achar hoje. O núcleo continua sendo o mesmo conjunto de contos, não uma coletânea nova com outro recorte.
Onze contos, e a bola nem sempre no centro
Um trabalho da Universidade Federal de Pelotas leu os onze contos pela fronteira, pelo território e pelo espaço, e notou o óbvio que o título esconde: o futebol nem sempre é o assunto principal. O campo organiza a narrativa. Clubes brasileiros e uruguaios aparecem no mesmo mapa, como se a linha da ponte não separasse o calendário. “Empate”, um dos contos, toma o Brasil de Pelotas, o xavante da cidade onde Schlee viveu e desenhou os gols do jornal, e onde foi sepultado.
Isso separa o livro do desenho de 1953. A camisa canarinho é um uniforme nacional, feito para um concurso do Correio da Manhã. Contos de futebol é literatura de quem jogava futebol de botão com a camisa do Cruzeiro de Porto Alegre e escrevia o pampa sem transformar o jogador em herói de pôster. Quem compra o volume para “entender a seleção” vai achar outra coisa, mais interessante: o jogo como vida de fronteira.
Para quem é o exemplar
Serve a quem já leu Linha divisória ou O dia em que o Papa foi a Melo e quer o Schlee do gramado local. Serve também a quem estuda conto brasileiro e procura futebol fora do eixo Rio-São Paulo. Não é antologia de vários autores, não é biografia de Pelé e não repete o uniforme em cada página. A capa da edição da Ardotempo, com o nome Aldyr Garcia Schlee e o título Contos de futebol, é o objeto certo para esse pedido.
O preço de sebo oscila e o estoque de um título antigo também. Antes de fechar, confirme o ISBN 9788562984174 se a intenção for a edição da Ardotempo, e não misture com a Mercado Aberto de 1997 nem com o original uruguaio de 1995. São aparições do mesmo livro em momentos diferentes, não três obras. Uma basta.



