Don Frutos não explica a camisa amarela. O romance de Aldyr Garcia Schlee acompanha os últimos tempos de Fructuoso Rivera, o brigadeiro que foi duas vezes presidente do Uruguai, quando a vida dele encosta em Jaguarão. Quem abre o livro à procura de um manual de futebol ou de uma crônica da seleção fecha cedo. O assunto é memória, poder e a fronteira em que o autor nasceu.
Rivera viveu de 1784 a 1854. Schlee não escreve um verbete desse período. Rearma o general por quem conviveu com ele: mulheres, políticos, militares e, sobretudo, a memória do próprio exilado. Jaguarão, do lado brasileiro da ponte, entra como lugar de fim de linha, não como cenário decorativo. O escritor jaguarense trata o outro lado do rio como parte da própria biografia, e o romance usa essa intimidade sem fingir que romance histórico é ata.
Por que este romance existe
Schlee passou a vida no conto. Don Frutos é a mudança de fôlego. A primeira edição saiu em 2010 pela Ardotempo, de Porto Alegre, depois de o autor já ter publicado, pela mesma casa, Os limites do impossível, os contos gardelianos de 2009. O romance entrou no ano em que o nome dele foi ligado ao Prêmio Fato Literário. Não é crônica de redação nem livro de uniforme. É a narrativa longa em que Rivera ocupa o lugar que, nos contos, cabia a gente sem cargo.
A capa da edição que segue à venda nos sebos anuncia segunda edição, revista e ampliada, com o ISBN 9788591142217. O miolo continua sendo o mesmo projeto: um romance de Aldyr Garcia Schlee sobre Don Frutos, não uma coletânea disfarçada. Para quem já leu os contos de fronteira, a diferença é de escala. O conto pega um dia, um milagre pequeno, um empate. O romance segura um homem público uruguaio até o último trecho.
Quem deve ler e o que o livro não promete
O leitor de história do Rio da Prata encontra Rivera sem a pose de manual escolar. O leitor de Schlee encontra o único movimento em que ele larga a forma curta por um arco longo, ainda preso a Jaguarão. Não há lição de liderança, nem reconstrução documental de cada batalha. Há a aposta de que um presidente se entende melhor pelas pessoas que sobraram em volta dele do que pela lista de cargos.
A edição da Ardotempo é o caminho concreto para quem quer o volume físico. O preço de sebo muda de exemplar para exemplar, e a disponibilidade também. O que não muda é o objeto: Don Frutos, romance, com o nome de Aldyr Garcia Schlee na capa e a medalha de Rivera no desenho. Vale conferir se o exemplar é a segunda edição antes de comparar com citações da primeira, de 2010, porque o próprio subtítulo avisa que houve revisão e ampliação.



