O dia em que o Papa foi a Melo parte de uma visita curta e de uma cidade que se preparou demais. Em 8 de maio de 1988, João Paulo II esteve em Melo, no departamento uruguaio de Cerro Largo, a cerca de 60 quilômetros da fronteira com o Brasil. Aldyr Garcia Schlee, que não estava na cidade nesse dia, transformou o episódio em dez contos. O papa é quase uma ausência. O livro fica com quem arrumou a casa, tentou vender faixa e esperou um milagre que não cabia no roteiro oficial.
A primeira edição saiu em espanhol, em 1991, pela Ediciones de la Banda Oriental, em Montevidéu, com o título El día en que el Papa fue a Melo. A edição brasileira, O dia em que o Papa foi a Melo, veio em 1999 pela Mercado Aberto, de Porto Alegre. Schlee trabalhou as duas versões. Uma dissertação da UFRGS estudou justamente essa autotradução, conto a conto. Não é o mesmo texto com as palavras trocadas. É o mesmo escritor atravessando a linha com o próprio livro.
O que os dez contos fazem com a visita
O interesse não é a figura de Karol Wojtyla. É o que uma cidade pequena inventa quando acredita que a passagem de um papa vai mudar o dia. Em “Milagre”, a Negra Martiana vê duas galinhas e um galo entrarem pela cozinha justo na data da visita, sem ter pedido nada ao Santo Padre. Em “Melo era uma festa”, um jornalista registra o fracasso do evento: a expectativa sobe, a passagem acaba, e o que tinha de acontecer não acontece. Schlee escreveu, anos depois, no Estadão, sobre a incredulidade de Jaguarão e de Río Branco diante da notícia de que o papa iria a Melo.
Esse ciclo saiu do papel. Em 2007, César Charlone e Enrique Fernández dirigiram O Banheiro do Papa, coprodução do Brasil com o Uruguai, a partir dessa matéria. Quem viu o filme e procura o livro não encontra um roteiro impresso. Encontra os contos de origem, com o humor seco de quem descreve preparo, prejuízo e fé popular sem transformar o morador em exemplo.
Qual edição comprar
A edição que circula hoje com capa da Ardotempo, ISBN 9788562984259, é um caminho real para o volume em português. O título na capa é o mesmo dos contos de 1999. O leitor que quiser a estreia uruguaia precisa da Banda Oriental, de 1991, em espanhol. As duas não são formatos repetidos à toa: uma é a língua em que o livro nasceu em Montevidéu, a outra é a versão que Schlee deu ao Brasil.
Não espere biografia do papa, nem guia da cidade de Melo, nem promessa de que a visita tenha deixado obra pública visível. O livro serve a quem quer ver como Aldyr Garcia Schlee usa um fato verdadeiro, a passagem de João Paulo II, para falar de gente que o fato não salvou. É literatura de fronteira com data, rua e decepção concreta.



