Imagem de capa do perfil de Aldyr Garcia Schlee
Foto de perfil de Aldyr Garcia Schlee

Aldyr Garcia Schlee

Nascimento: 1934 Jaguarão, RS
Ver projetos (3)
Contista e jornalista de Jaguarão. Desenhou a camisa canarinho em 1953 e escreveu a fronteira do Brasil com o Uruguai.

O resultado saiu no Correio da Manhã em 15 de dezembro de 1953: o uniforme novo da seleção brasileira tinha autor, e o autor era um desenhista de Pelotas chamado Aldyr Garcia Schlee. A camisa amarela, o calção azul e as meias brancas passaram a vestir o time em 1954. Quem chega hoje pelo nome de camisa canarinho quase sempre para nesse desenho. A vida pública dele não para aí.

Schlee nasceu na fronteira, escreveu nos dois lados dela e passou décadas como jornalista, tradutor e professor de direito internacional. Torcia pela Celeste, a seleção do Uruguai, e pelo Brasil de Pelotas. O desenho que o tornou reconhecível fora do Rio Grande do Sul era, para ele, uma parte pequena de um ofício maior.

Quem é Aldyr Garcia Schlee

Aldyr Garcia Schlee nasceu em 22 de novembro de 1934, em Jaguarão, cidade gaúcha ligada a Río Branco, no Uruguai, pela ponte sobre o rio Jaguarão. Filho de um imigrante alemão e de uma mulher da própria fronteira, cresceu entre o português e o espanhol, com o alemão da família por perto. Essa mistura não ficou na conversa de casa. Entrou nos contos, nas traduções e no hábito de publicar primeiro de um lado da linha e depois do outro.

Aos 15 anos foi para Pelotas estudar. Ali começou a desenhar e a fazer caricatura para jornais locais, inclusive os esquemas de gol das rodadas. Jaguarão continuou sendo a medida das histórias: o outro lado da ponte, a cidade uruguaia vizinha, o pampa em que a divisa existe no mapa e some na fala do dia a dia.

Morreu em Pelotas, em 15 de novembro de 2018, aos 83 anos, de câncer. A prefeitura decretou luto oficial. Foi casado por 58 anos com Marlene Rosenthal Schlee e deixou os filhos Sylvia, Andrey e Aldyr. Nos últimos anos alternava Pelotas com um sítio em Capão do Leão, município vizinho. O passatempo era o futebol de botão, com um time que vestia a camisa do Cruzeiro, de Porto Alegre, na escalação dos anos 1960.

O concurso da camisa amarela

O concurso do Correio da Manhã pedia um uniforme com as cores da bandeira. Schlee, que já desenhava esporte em Pelotas, inscreveu um modelo de camisa amarela com detalhes verdes, calção azul e meias brancas. A análise correu em novembro de 1953. No dia do resultado, 15 de dezembro, ele tinha 19 anos. A Confederação Brasileira de Desportos oficializou o uniforme, e o conjunto ficou. O amarelo virou o sinal pelo qual o time brasileiro é reconhecido em qualquer estádio.

O prêmio incluiu dinheiro e um estágio no próprio Correio da Manhã, no Rio de Janeiro. Na redação, conviveu com gente do jornalismo da época, entre eles Nélson Rodrigues, Antônio Callado, Millôr Fernandes e Samuel Wainer. O estágio abriu a porta do ofício. A camisa, sozinha, não explica o que ele fez com essa porta.

Décadas depois, ele se afastou do símbolo. Em entrevista publicada pelo Sul21 em 2011, disse: “Eu só digo que não tenho culpa. A partir desta camiseta, eu não tenho mais nada a ver com a Seleção Brasileira.” Enquanto o desenho conservasse camisa amarela, calção azul, meia branca e o verde apenas como detalhe, ele ainda reconhecia a criação. O amarelo usado solto, fora desse conjunto, já não era assunto dele. Em 2018, ano de Copa, recusou entrevistas sobre a origem da camisa.

Do Última Hora à cátedra em Pelotas

O jornalismo veio antes da circulação larga dos livros. Schlee trabalhou no Última Hora de Porto Alegre como planejador gráfico, repórter e redator, e criou a Gazeta Pelotense. Em 1963 ganhou o Prêmio Esso pela reportagem sobre o xisto betuminoso no Rio Grande do Sul, a rocha de que se extrai petróleo de xisto. O prêmio marca um repórter de tema duro, não um desenhista lembrado só pelo esporte.

Fundou a faculdade de jornalismo da Universidade Católica de Pelotas. Depois do golpe de 1964 foi expulso dessa faculdade, preso, e respondeu a IPMs. A cátedra longa veio na Faculdade de Direito da Universidade Federal de Pelotas, onde lecionou direito internacional por mais de trinta anos e também foi pró-reitor de extensão e cultura. Era doutor em ciências humanas. A sala de aula e a redação explicam o escritor tanto quanto o concurso de 1953.

Os livros da linha divisória

O grosso da obra são contos. Uma terra só, de 1984, pela Melhoramentos, levou o primeiro lugar da Bienal Nestlé de Literatura. Linha divisória, também pela Melhoramentos, e Contos de verdades, pela Mercado Aberto, seguem o mesmo chão: gente comum, divisa, idioma misturado. Ele recebeu a Bienal Nestlé duas vezes e o Prêmio Açorianos de Literatura em várias edições. Em 2015, em Brasília, recebeu a Ordem do Mérito Cultural.

Dois livros mostram bem o recorte. O dia em que o Papa foi a Melo saiu primeiro em espanhol, em 1991, pela Banda Oriental, de Montevidéu, e em português em 1999, pela Mercado Aberto. São dez contos em torno da visita de João Paulo II a Melo, em 8 de maio de 1988. O papa quase não aparece. Aparecem os preparativos, o comércio que não vende e a expectativa de quem não tinha o que esperar. O conto “Milagre”, com a personagem Negra Martiana, e o olhar de repórter em “Melo era uma festa” estão nesse ciclo. Em 2007, César Charlone e Enrique Fernández levaram essa matéria ao cinema em O Banheiro do Papa, coprodução do Brasil com o Uruguai.

Contos de futebol também nasceu no Uruguai, em 1995, como Cuentos de fútbol, e chegou ao Brasil em 1997 pela Mercado Aberto. São onze narrativas, numeradas como as camisas de um time antigo. O futebol nem sempre é o mote: o campo serve para falar de clube pequeno, de lado de cá e de lado de lá. “Empate” trata do Brasil de Pelotas, o clube pelo qual ele torcia. Don Frutos, romance de 2010 pela Ardotempo, muda de escala e segue Fructuoso Rivera, duas vezes presidente do Uruguai, nos últimos tempos ligados a Jaguarão.

  • Traduziu Facundo, de Domingo Faustino Sarmiento, com notas e estudo crítico, em edição da UFRGS e da PUC-RS.
  • Preparou a edição crítica de Contos gauchescos e Lendas do Sul, de João Simões Lopes Neto, pelo IEL e pela Unisinos.
  • Organizou e traduziu antologias uruguaias, entre elas Pátria uruguaia, de Eduardo Acevedo Díaz, e revisou a tradução de Don Segundo Sombra, de Ricardo Güiraldes.

O que esses livros pedem do leitor

Não são guia de estádio nem biografia de craque. Quem quiser a camisa encontra o desenho de 1953. Quem quiser Schlee encontra conto de fronteira, travessia entre português e espanhol e um romance histórico sobre Rivera. Os limites do impossível, de 2009, com o subtítulo “os contos gardelianos”, também pela Ardotempo, empurra o mesmo interesse para Carlos Gardel sem transformar o autor em biógrafo de cantor.

Na literatura publicada no Brasil, o nome dele continua mais fácil de achar pelo futebol do que pela estante. A estante é que segura a obra: Mercado Aberto, Melhoramentos, Banda Oriental e Ardotempo são as casas por onde os livros circularam, muitas vezes primeiro em Montevidéu e só depois em Porto Alegre.

O que a camisa não explica

O sobrenome era dito, na fronteira, de um jeito que os vizinhos aportuguesaram para Chilê. O detalhe importa porque a pronúncia, como a ponte de Jaguarão, marca alguém que não cabia inteiro de um lado só. Foi sepultado em Pelotas com a bandeira do Uruguai sobre o caixão e com nota de pesar do Brasil de Pelotas.

O desenho de 1953 segue em campo. Os contos seguem na fronteira, com outro endereço: a linha entre Jaguarão e Río Branco, o papa que passa e não resolve a vida de quem esperava, o empate de um clube pequeno, o general uruguaio lembrado por quem ficou. É nesse conjunto, e não só no amarelo, que Aldyr Garcia Schlee se lê.

Experiências da comunidade

Avaliações sobre Aldyr Garcia Schlee

Veja as opiniões dos leitores e compartilhe sua experiência.

0 avaliações positivas e 0 negativas com comentário.

Relatos publicados

Opiniões dos leitores sobre suas experiências. As avaliações não comprovam fatos nem representam a posição do site.

Ainda não há avaliações com comentário. Sua experiência pode ajudar o próximo leitor.

Para contestar um relato ou solicitar a remoção dos seus dados, entre em contato e informe a página e o comentário.

Compartilhe sua avaliação

Escreva de 60 a 200 palavras sobre esta pessoa ou projeto. Não inclua anúncios, links, insultos ou dados pessoais.

Sua experiência

0 de 200 palavras · mínimo de 60

Carregando verificação humana...

Projetos de Aldyr Garcia Schlee

Don Frutos
Don Frutos
Romance de Aldyr Garcia Schlee sobre os últimos tempos de Fructuoso Rivera, duas vezes presidente do Uruguai, com Jaguarão no horizonte.
00%
00%
Contos de futebol
Contos de futebol
Onze contos de fronteira em que o futebol de clube, dos dois lados da linha, entra sem virar crônica de seleção.
00%
00%