Contexto e proposta de Cordéis de Pedro Macambira
Os Cordéis de Pedro Macambira nasceram de uma urgência prática: levar a discussão sindical para dentro das fábricas de São Paulo num tempo em que jornal de oposição circulava escondido e a "rádio peão" era o boca a boca. Cleodon Silva, dirigente da Oposição Sindical Metalúrgica, escrevia versos de cordel, imprimia com os recursos que tinha e colocava o material na mão dos companheiros. O primeiro, "Conversa de três pelegos com satanás", saiu em fevereiro de 1978, às vésperas da eleição do Sindicato dos Metalúrgicos de São Paulo, quando a oposição montou chapa para enfrentar o interventor Joaquim dos Santos de Andrade, o Joaquinzão.
O temário era o cotidiano de quem estava na produção: chefe cruel, arrocho salarial, eleição sindical manipulada, comissão de fábrica, greve. Durante anos, a autoria ficou escondida — Pedro Macambira era o nome que aparecia nos folhetos, e o próprio Cleodon explicava depois que a escolha vinha da macambira, bromélia resistente do sertão nordestino que guarda água na seca. A revelação só veio em 1985, junto com o livreto "Reco-reco – máquina de bater em patrão", um manual para construir uma impressora caseira e permitir que os operários imprimissem os próprios materiais.
Os títulos que circularam
- Conversa de três pelegos com satanás (1978)
- O candidato honesto que engana todo o mundo (1978)
- Chegou a hora. Nós e os patrões – o desafio da morte (1979)
- Aparição de Paraíba e os abusos da Jurubatuba S/A (1980)
- A história do pelego camaleão (1981)
- Marmita ou mangueirão – o drama do peão da Monark (1982)
- A greve da Barbará e o carrasco Diamantino (1983)
- Sub-sede dos metalúrgicos de Santo Amaro – 20 anos de abandono (1984)
Em 1989, na eleição presidencial, os versos voltaram com "Sarney – TV Globo e o pau de fome", em que o cordelista defendeu a candidatura de Luiz Inácio Lula da Silva contra o projeto neoliberal representado por Fernando Collor. Ao todo, são 12 cordéis assinados por Pedro Macambira, segundo levantamento citado sobre a obra do autor.
Quando a produção foi reunida em coletânea, o prefácio ficou a cargo do sociólogo Florestan Fernandes. Ele viu nos folhetos um instrumento de socialização política dos peões nordestinos recém-chegados à indústria paulista e escreveu que as composições transmitiam "informações, atitudes e um código ideológico completo, de corte sindicalista". O prefácio está disponível no Arquivo Marxista na Internet.
A produção também entrou na universidade. O artigo "Cordéis de Pedro Macambira: comunicação popular e alternativa no contexto do movimento sindical", de Rozinaldo Antonio Miani, publicado na Revista Brasileira de História da Mídia, analisa os versos como prática política e como expressão de comunicação popular dentro do movimento sindical brasileiro. Leia o estudo.
Por que esses cordéis ainda importam
Cleodon Silva escrevia para ser entendido por quem tinha pouca leitura formal e muita experiência de fábrica. O resultado é uma crônica em verso da formação da classe trabalhadora paulista: a migração nordestina, o despotismo dentro da fábrica, o sindicato tutelado pelo Estado e a aposta na organização de base. Quem estuda história do trabalho, comunicação popular ou literatura de cordel encontra nesses folhetos uma fonte rara — escrita por dentro do movimento, e não sobre ele.



