Contexto e proposta de Instituto Lidas
O Instituto Lidas foi fundado por Cleodon Silva em 1988, depois de quase duas décadas de militância sindical, para responder a uma pergunta que ele repetia: como fazer o conhecimento que existe nas comunidades contar nas decisões sobre a cidade? A organização nasceu com a proposta de reunir informações e indicadores oficiais e contrastá-los com os saberes produzidos por quem mora no território.
Desse trabalho saiu uma divisão urbana própria. Em vez de operar apenas com distritos e subprefeituras, o Lidas organizou a cidade de São Paulo em Unidades de Planejamento Participativo (UPPs), subunidades definidas pelos critérios de pertencimento e de uso do espaço dos próprios moradores. São cerca de 270 unidades, cada uma com dados sobre população, equipamentos públicos e condições de vida.
Base Comum de Conhecimento Cidadão
Sobre essas unidades foi construída a Base Comum de Conhecimento Cidadão (BCCC), plataforma online desenvolvida com técnicas de georreferenciamento e software livre. A proposta era que qualquer pessoa pudesse consultar e também inserir informação sobre a sua UPP — de escolas e creches a coletivos culturais — tornando visíveis dados que costumam ficar dispersos. Ao mesmo tempo, o desenho do sistema dificultava a manipulação dos dados públicos e ampliava o acesso a eles.
Cooplurb, formação de jovens e renda
Com jovens de 16 a 29 anos, o instituto ajudou a criar a Cooplurb, cooperativa de logística urbana que usava as UPPs e a base de dados para montar modelos de negócio de baixo custo voltados a pequenas e médias empresas em bairros pobres. Em 2001, em parceria com a associação Casa dos Meninos, o trabalho mobilizou 30 jovens de M'Boi Mirim, na zona sul de São Paulo, para construir um mapa digital da região com indicadores locais — número de crianças de 0 a 6 anos, chefes de família desempregados, situação de pequenos negócios — e a localização de escolas, creches, centros comunitários, hospitais e centros de saúde.
O método não servia apenas para reivindicar. Ao enriquecer os dados existentes e produzir novas visualizações, o mapeamento também ajudava o poder público a planejar políticas para aqueles territórios, inclusive as ligadas aos pontos de cultura.
Reconhecimento e continuidade
Em 2010, Cleodon Silva foi eleito fellow da Ashoka, organização internacional que apoia empreendedores sociais, pelo trabalho que desenvolvia no Instituto Lidas. Ele coordenava o instituto quando morreu, em 7 de junho de 2011, em São Paulo.
A lógica de mapeamento participativo que ajudou a formular segue viva em projetos de dados abertos e de cultura digital. Parte desse trabalho continuou no Lab Macambira, coletivo de software livre criado em sua homenagem, que manteve iniciativas nascidas no instituto, como a plataforma da Conferência Permanente dos Direitos da Criança e do Adolescente.
Para quem trabalha hoje com dados abertos, orçamento participativo ou cartografia social, o Lidas é uma referência pioneira: mostra que mapear um território com os moradores, e não apenas para eles, muda a qualidade da informação que chega à gestão pública.



