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Cleodon Silva

Silva

Nascimento: 1949 Garanhuns, Pernambuco
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Metalúrgico e dirigente da Oposição Sindical Metalúrgica de São Paulo, criou os cordéis de Pedro Macambira e fundou o Instituto Lidas, ligado à cultura livre.

Cleodon Silva (1949–2011), o Silva da Oposição Sindical Metalúrgica de São Paulo, é uma daquelas figuras em que a história do trabalho e a história da tecnologia se cruzam sem cerimônia. Ele organizou comissões de fábrica nas greves metalúrgicas do fim dos anos 1970, escreveu cordéis que circulavam de mão em mão nos bairros operários e, nas duas décadas seguintes, trocou o mimeógrafo artesanal pelo geoprocessamento e pelo software livre, sempre com a mesma pergunta de fundo: como fazer o trabalhador e o morador da periferia falarem por si mesmos.

Nascido em Garanhuns, em Pernambuco, chegou a São Paulo em 1971, quando a ditadura militar fechava o cerco a quem militava à esquerda. Na capital, entrou na luta sindical pela Oposição Sindical Metalúrgica de São Paulo (OSM-SP), trabalhou como inspetor de qualidade em empresas do ramo e viveu as grandes greves de 1978 e 1979. Duas décadas depois, já não era o dirigente de piquete: era o coordenador do Instituto Lidas e um dos nomes de uma geração que levou o movimento social para a internet.

Quem foi Cleodon Silva

A militância começou cedo. Ainda adolescente, no movimento estudantil secundarista em Pernambuco, ele se aproximou de organizações de esquerda e atuou contra o regime militar. A mudança para São Paulo, em 1971, foi também uma saída forçada pela repressão. No mesmo ano, passou a integrar a direção da Oposição Sindical Metalúrgica de São Paulo; voltaria à direção do movimento em 1975, conforme registros da própria organização.

Foram cerca de 20 anos de atuação sindical. Além da OSM-SP, foi dirigente da CUT Metropolitana e da CUT Estadual de São Paulo. A defesa que o acompanhava era a da organização autônoma dos trabalhadores no local de trabalho: comissões de fábrica, oposição ao peleguismo e independência em relação a patrões e ao Estado.

Em 1978, trabalhando na metalúrgica Barbará, na zona sul de São Paulo, viveu a greve que marcou sua geração. Foi nesse período que começou a escrever e a distribuir os folhetos que assinava como Pedro Macambira.

Pedro Macambira: os cordéis que falavam com o chão de fábrica

O primeiro cordel de Pedro Macambira saiu em fevereiro de 1978, às vésperas da eleição do Sindicato dos Metalúrgicos de São Paulo. "Conversa de três pelegos com satanás" tratava justamente daquela disputa, em que a oposição sindical organizava chapa para enfrentar o interventor Joaquim dos Santos de Andrade, o Joaquinzão. Durante anos, ninguém sabia quem estava por trás do nome: Pedro Macambira era uma referência à bromélia resistente do sertão nordestino, que guarda água na seca.

Os versos tratavam do cotidiano de quem estava na produção: chefe cruel, arrocho salarial, eleição sindical manipulada, comissão de fábrica, greve. A produção circulou por fábricas, bairros e pela "rádio peão" — a conversa de corredor que fazia as vezes de imprensa. A identidade do autor só foi admitida publicamente em 1985, quando o próprio dirigente revelou o pseudônimo e publicou o livreto "Reco-reco – máquina de bater em patrão", um manual para construir uma impressora caseira e permitir que os operários imprimissem os próprios materiais.

Em 1989, Cleodon voltou ao cordel para tratar da eleição presidencial em "Sarney – TV Globo e o pau de fome", em que defendeu a candidatura de Luiz Inácio Lula da Silva contra o projeto neoliberal representado por Fernando Collor. É uma amostra de como a literatura de cordel seguiu sendo, para ele, ferramenta de disputa política.

Quando a produção foi reunida em coletânea, o prefácio ficou a cargo do sociólogo Florestan Fernandes, que enxergou nas composições um instrumento de socialização política dos peões nordestinos recém-chegados à indústria paulista: "as composições visam transmitir informações, atitudes e um código ideológico completo, de corte sindicalista", escreveu. O texto está disponível no Arquivo Marxista na Internet.

Instituto Lidas, geoprocessamento e tecnologia social

No fim dos anos 1980, Cleodon se afastou do movimento sindical e aproximou-se das novas tecnologias de informação. Em 1988, fundou o Instituto Lidas, organização que se dedicou a mapear o conhecimento existente nas cidades: reunir dados e indicadores oficiais e contrastá-los com os saberes produzidos pelas comunidades locais.

Desse trabalho saiu uma divisão urbana própria. Em vez de trabalhar apenas com distritos e subprefeituras, o Lidas organizou a cidade de São Paulo em Unidades de Planejamento Participativo (UPPs), subunidades definidas pelos critérios de pertencimento e de uso do espaço dos próprios moradores. Sobre essas unidades foi construída a Base Comum de Conhecimento Cidadão (BCCC), plataforma online que cruzava georreferenciamento e tecnologia livre para tornar consultável — e editável — um conjunto enorme de informações sobre cada território.

Com jovens de 16 a 29 anos, o instituto ajudou a criar a Cooplurb, cooperativa de logística urbana que usava as UPPs e a base de dados para montar modelos de negócio de baixo custo voltados a pequenas e médias empresas em bairros pobres. Em 2001, em parceria com a associação Casa dos Meninos, o trabalho mobilizou 30 jovens de M'Boi Mirim, na zona sul, para construir um mapa digital da região com indicadores locais e a localização de escolas, creches, postos de saúde e centros culturais.

Em 2010, Cleodon foi eleito fellow da Ashoka, organização que apoia empreendedores sociais, pelo trabalho que desenvolvia no Lidas. Ele coordenava o instituto quando morreu, em 7 de junho de 2011, em São Paulo.

Cultura livre, reconhecimento e legado

Cleodon via o software livre como instrumento de libertação: acesso efetivo à tecnologia, para qualquer pessoa, como forma de democratizar a informação e a participação cívica. Em 2010, participou de uma roda de prosa em que falou sobre a internet e os territórios livres, defendendo que a inclusão digital só faz sentido quando amplia a voz de quem está na ponta.

Depois de sua morte, um coletivo de desenvolvimento de software livre foi criado em sua homenagem: o Lab Macambira, nome que retoma o pseudônimo dos cordéis. O grupo continuou projetos que ele ajudou a iniciar, entre eles a plataforma da Conferência Permanente dos Direitos da Criança e do Adolescente.

O reconhecimento público seguiu nos anos seguintes. Em 2024, a Universidade Federal do Paraná e o Ministério da Cultura criaram o Prêmio Cleodon Silva de Soluções Digitais Livres, homenagem a quem trataram como "ativista cultural e defensor da cultura livre", voltado ao desenvolvimento de ferramentas digitais para a gestão cultural no Brasil.

Marcos da trajetória

  • 1949 — nasce em Garanhuns, em Pernambuco.
  • 1971 — chega a São Paulo e integra a direção da Oposição Sindical Metalúrgica.
  • 1978 — publica o primeiro cordel de Pedro Macambira e vive a greve na metalúrgica Barbará.
  • 1985 — revela publicamente o pseudônimo e lança o livreto do reco-reco.
  • 1988 — funda o Instituto Lidas.
  • 2010 — é eleito fellow da Ashoka.
  • 2024 — o prêmio da UFPR com o Ministério da Cultura leva seu nome.

Quem procura entender a história do novo sindicalismo brasileiro, a comunicação popular ou a origem do mapeamento participativo encontra em Cleodon Silva um ponto de encontro entre esses mundos — um dirigente operário que terminou a vida ensinando jovens da periferia a ler a cidade em mapas e dados abertos.

Projetos de Cleodon Silva

Cordéis de Pedro Macambira
Cordéis de Pedro Macambira
Os 12 cordéis que Cleodon Silva publicou sob o pseudônimo Pedro Macambira para levar a luta sindical às fábricas entre 1978 e 1989.
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Instituto Lidas
Instituto Lidas
Organização fundada por Cleodon Silva em 1988 para cruzar dados oficiais e saberes locais e fortalecer a participação cidadã nos territórios.
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