De Ponta-Cabeça guarda a coluna, não a reportagem de risco. Entre 1994 e 1999, Otavio Frias Filho escreveu toda semana na página 2 da Folha de S.Paulo. Em 2000, a Editora 34 escolheu 99 desses artigos e os publicou com o subtítulo Fim do milênio em 99 artigos de jornal.
O livro interessa a quem perdeu o jornal da época e quer o julgamento curto de um diretor de Redação sobre fatos ainda quentes. Não é diário íntimo. É a página 2 separada do papel de amanhã e entregue em volume.
O recorte dos 99 artigos
A sinopse da edição, repetida pelas livrarias que ainda trabalham o título, descreve o campo sem enfeite: a conquista da estabilidade financeira, a consolidação de ideias liberais na economia, a internet como fenômeno de massa, a religião como espetáculo de mídia e a reeleição presidencial. São assuntos do primeiro governo Fernando Henrique Cardoso e da virada do século, vistos da cadeira de quem também respondia pela linha do jornal.
A ficha técnica fecha o objeto. Cerca de 224 páginas, ISBN 978-85-7326-168-4, brochura, formato em torno de 14 por 21 centímetros. Não é antologia de vários autores. É uma pessoa relendo a própria coluna. O subtítulo avisa a conta: 99 artigos, não a obra completa do período.
Os títulos internos mostram o tamanho da mira. No sumário entram peças como “Mais um plano”, “Um encanador é um encanador”, “Governo sem imagem”, “Política do impossível” e “O nome de Enéas”. São artigos curtos sobre plano econômico, ofício, imagem de governo e a política dos anos 1990. O volume não se apresenta como tratado. Apresenta-se como arquivo da semana.
Por que não substitui os outros livros
A coluna semanal obriga decisão rápida sobre fato que ainda não esfriou. Seleção Natural, de 2009, escolhe 25 textos em cerca de 25 anos e abre espaço para cinema, teatro, Darwin e cartas abertas. Queda Livre exige que o autor saia da redação e entre na cena. De Ponta-Cabeça fica no gênero do artigo de jornal: o modo como Frias Filho aparecia para o leitor comum da Folha antes de aparecer como dramaturgo.
Quem procura o pensamento político dele no dia a dia do diário começa por este volume. Quem procura o método de se colocar em risco físico ou ritual começa por outro. A diferença de gênero é o motivo de os livros não se substituírem. Ler um não dispensa o outro, porque cada um responde a uma pressa distinta. A coluna quer o comentário da semana. O ensaio de risco quer a experiência inteira.
Onde o exemplar ainda aparece
A Editora 34 lançou o título em 2000. Hoje ele circula em livrarias que encomendam o catálogo antigo e no mercado de usados. Não há uma edição digital que tenha tomado o lugar do impresso, nem caixa comemorativa que altere os 99 textos. O que se encontra é o livro da coluna, com o desenho de capa em que um corpo está literalmente de ponta-cabeça. O título, nesse caso, não é metáfora solta. É a imagem que a edição escolheu para uma seleção de artigos do fim do milênio.



