Queda Livre não é memória de redação nem seleção de coluna. É o livro em que Otavio Frias Filho entra em sete experiências e escreve o que viu de dentro delas.
A Companhia das Letras publicou o volume em 2003, com o subtítulo Ensaios de risco e cerca de 288 páginas. Ele chamou os textos de investigações participativas. A fórmula junta o relatório do que aconteceu a uma voz pessoal, distanciada e ácida. A editora recupera a imagem que o próprio autor usou: descidas até os círculos do inferno pessoal. Não é frase de orelha inventada depois. É o nome que ele deu ao método.
As sete cenas
A casa editorial lista as situações sem suavizar. No primeiro texto, quem tem pavor de avião embarca num monomotor e salta de paraquedas depois de dois minutos de treinamento em terra. No segundo, vai ao interior da Amazônia e toma o chá do Santo Daime numa cerimônia. No terceiro, desce ao mar num submarino construído no Brasil, medicado contra o enjoo, apesar da claustrofobia. No quarto, sobe ao palco como ator numa montagem dirigida por José Celso Martinez Corrêa, depois de apenas três ensaios.
Os textos seguintes atravessam o Caminho de Santiago, o universo do sexo transgressivo e a aproximação do suicídio pelo voluntariado no CVV, o Centro de Valorização da Vida. Três desses ensaios nasceram antes, a convite de Wagner Carelli, então diretor editorial da revista República, e reaparecem no livro revistos e aumentados. O Observatório da Imprensa registrou esse caminho em dezembro de 2003, quando o volume chegou às livrarias. Houve encomenda, reescrita e uma tese de ofício: participar da cena e ainda assim tentar esgotar o assunto.
O contraste com a Folha que ele dirigia
Quem procura um manual de reportagem não encontra checklist. Encontra um problema concreto. Até onde o autor pode entrar na cena sem transformar a cena em confissão, e até onde a confissão ainda informa quem não esteve lá. Frias Filho era, na data do lançamento, o editor que cobrava da Folha texto descritivo, mais de um ângulo e a seção Erramos. Queda Livre é o avesso permitido dessa regra: primeira pessoa, risco físico, constrangimento. O interesse do livro está nesse contraste, não numa sequência de aventuras.
Para quem acompanha a carreira, o volume ocupa um lugar datado. A coluna semanal da página 2 já tinha sido encerrada e reunida em De Ponta-Cabeça. Os 25 ensaios de cultura e política só sairiam em Seleção Natural, em 2009. Queda Livre fica no meio, como o momento em que o diretor de Redação decide, por escrito, sair da cadeira e voltar com relato.
Edição que se compra hoje
A edição de referência é a da Companhia das Letras, ISBN 978-85-359-0447-5, lançada em 5 de dezembro de 2003. Em 2020 a mesma casa republicou o texto em formato digital. O miolo continua sendo aqueles sete ensaios. Não há curso, atualização nem versão ampliada que mude o projeto. O que está à venda é o livro de 2003, em papel ou na edição digital posterior da mesma obra.



