Tutankáton + O Terceiro Sinal junta duas peças de Otavio Frias Filho que, no palco, nasceram com quase trinta anos de distância. O volume da editora Cobogó, de 2019, não reúne tudo o que ele encenou. São dois textos, com notas do autor sobre o primeiro.
O livro resolve uma falta prática. As peças circulavam em edições antigas ou na memória de quem viu o espetáculo. Aqui, o texto de 1990 e o texto do último ano de vida ficam no mesmo objeto, publicados depois da morte do autor.
Tutankáton, a peça de 1990
Tutankáton foi escrita em 1990 e saiu primeiro pela Iluminuras, em 1991. A fábula é explícita. No Egito antigo, uma vidente anuncia a ruína de um país já abatido por seca e peste. O faraó jovem herda o trono, e o próprio caráter o empurra para a paralisia. A multidão está insatisfeita. A guerra se aproxima. As notas finais, escritas por Frias Filho, comentam escolhas estéticas que ele via como avessas ao espírito da época. Não é reportagem disfarçada de diálogo. É teatro, com cenário antigo e um governante que não consegue agir.
Lida ao lado da biografia, a peça não vira alegoria automática da Folha. O que ela mostra é o dramaturgo no início da vida autoral, ainda longe de O Terceiro Sinal, escolhendo um mito de poder paralisado em vez do noticiário da semana. As notas da edição da Cobogó importam por isso. Elas deixam o autor explicar o artifício, em vez de obrigar o leitor a adivinhar a intenção.
O Terceiro Sinal, o texto de 2018
O Terceiro Sinal é o outro polo do volume. Adapta para o palco um ensaio dele sobre o ofício do ator. Em 2018 a peça esteve no Teatro Oficina, em São Paulo, com Bete Coelho. O texto narra a experiência de quem passou décadas escrevendo teatro e, num momento preciso, atravessou o palco como intérprete. Em Queda Livre, de 2003, essa travessia já aparecia como uma das sete investigações: atuar sob direção de José Celso Martinez Corrêa depois de três ensaios. Em 2018, a experiência deixa de ser capítulo de reportagem e vira peça.
A distância entre os dois textos é o miolo do volume. Um olha para um faraó que não se move. O outro olha para o corpo do próprio autor em cena, já no ano em que a doença avançava. A Cobogó não mistura os dois num espetáculo só. Publica os dois para leitura, com a peça antiga acompanhada das notas de quem a escreveu.
O que fica de fora
Típico Romântico, Rancor, Don Juan e Sonho de Núpcias, encenadas em São Paulo entre 1992 e 2002, não estão neste livro. Quem quer o arco completo do dramaturgo não fecha a conta aqui. Quem quer ver, no mesmo volume, o Frias Filho de 1990 às voltas com poder e paralisia e o Frias Filho de 2018 às voltas com o próprio corpo em cena, encontra exatamente essa dupla.
A edição tem 128 páginas, ISBN 8555910870, publicada em 23 de outubro de 2019. Não promete biografia definitiva nem substitui a leitura de Queda Livre, onde a estreia como ator foi contada em prosa. Promete as duas peças, impressas juntas, quando as montagens já saíram de cartaz.



