Há projetos que só cabem em formato pequeno. De uma a outra ilha, publicado em 2023 pelo Círculo de Poemas, é uma plaquete: um poema longo, acompanhado de imagens, pensado para ser lido de uma sentada e relido muitas vezes. O volume integra uma série em que os poetas convidados escolhem o mapa de um lugar — real, inventado ou desejado — e escrevem a partir dele.
O lugar escolhido: Lesbos
Ana Martins Marques escolheu a ilha grega de Lesbos. O lugar tem duas camadas que o poema explora: foi casa de Safo, a poeta da Antiguidade cuja obra chegou até nós em fragmentos, e é hoje ponto de trânsito de imigrantes que tentam alcançar o continente europeu pelo Mediterrâneo.
A partir da lógica do fragmento — aquilo que restou da poesia de Safo —, a autora compõe uma cartografia do presente, combinando temporalidades, corpos e registros discursivos. A lírica íntima e metalinguística, marca registrada da sua obra, cruza o embate das políticas contemporâneas diante de pessoas que atravessam o risco do mar e da terra.
Formato e acabamento
O poema vem acompanhado de imagens de fragmentos de pergaminhos com trechos de poemas de Safo, formando um pequeno arquipélago textual dentro do livro. O posfácio é de Guilherme Gontijo Flores, tradutor e poeta, que chama atenção para o cruzamento entre a lírica continuamente íntima e o drama humano das travessias.
A plaquete foi lançada em julho de 2023 e logo entrou no circuito de leitores do Círculo de Poemas, editora independente dedicada à poesia e organizada por assinatura. A venda é feita diretamente pela editora, o que mantém o título circulando em clubes de leitura e comunidades de poesia.
O formato é parte da proposta. Plaquetes circulam em tiragens menores, chegam rápido às mãos de leitores e permitem que um poema longo ocupe o centro da cena, sem concorrência com outros textos. No caso de De uma a outra ilha, o desenho gráfico e as imagens dos fragmentos de Safo transformam o livro em objeto de leitura e de contemplação.
Reconhecimento
Em 2024, o poema foi finalista do Prêmio Jabuti, uma das premiações mais importantes do livro brasileiro. A indicação confirmou a força da obra recente de Ana Martins Marques e chamou atenção para um formato que muitas vezes passa fora dos grandes circuitos: a plaquete como objeto editorial autônomo, capaz de sustentar um projeto poético inteiro.
Por que ler
- Para conhecer uma faceta mais política da obra da autora, sem abrir mão da elaboração lírica;
- Para quem se interessa por Safo e pela recepção contemporânea da poesia grega;
- Para quem gosta de poemas longos que constroem um arco, e não apenas coletâneas de textos curtos;
- Para colecionadores de plaquetes e edições independentes.
Para quem é
O volume dialoga com leitores de poesia contemporânea, com pessoas interessadas em migração e Mediterrâneo, com admiradores do trabalho editorial do Círculo de Poemas e com quem já acompanha a trajetória de Ana Martins Marques. É um livro curto em páginas e longo em ressonância — e um bom exemplo de como a autora transforma um lugar do mapa em pergunta sobre o tempo presente.





