Ana Martins Marques entrou na poesia brasileira por uma porta premiada: os poemas que dariam origem a A vida submarina venceram o prêmio Cidade de Belo Horizonte em 2007 e 2008, dois anos antes de o livro sair pela Scriptum. A estreia apresentou uma voz que une elaboração formal e atenção ao cotidiano, e desde então a autora mineira se firmou como uma das presenças centrais da poesia contemporânea do país.
Nascida em Belo Horizonte, em 7 de novembro de 1977, ela construiu uma trajetória que passa pela universidade, pelo trabalho editorial e pela releitura de referências clássicas. Publicou oito títulos, entre livros solo e parcerias, por editoras como Scriptum, Companhia das Letras, Luna Parque, Relicário, Quelônio e Círculo de Poemas.
Quem é Ana Martins Marques
Ana Martins Marques é poeta, pesquisadora e servidora pública. Formou-se em Letras pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), mesma instituição em que concluiu o mestrado em Literatura, com dissertação de 2003 sobre o romancista João Gilberto Noll, e o doutorado em Literatura Comparada, defendido em 2013, sobre a incorporação da fotografia na produção literária contemporânea.
Fora da vida acadêmica, atua como redatora e revisora na Assembleia Legislativa de Minas Gerais. A rotina profissional convive com uma produção poética que ganhou projeção nacional a partir dos anos 2010 e circula em antologias, revistas literárias e estudos acadêmicos no Brasil e no exterior.
Como a carreira literária começou
O ponto de partida foi um concurso. Poemas que depois integrariam A vida submarina foram premiados pelo Cidade de Belo Horizonte em 2007 e 2008, e o livro chegou às livrarias em 2009, pela Scriptum. Na obra de estreia, a poeta retoma o mito de Penélope em seis poemas e desloca a figura da espera: em vez de tecer e desfazer à espera de Ulisses, a personagem se torna protagonista da própria história. O livro voltou às livrarias em 2021, em reedição da Companhia das Letras.
Dois anos depois veio Da arte das armadilhas (2011), o título que consolidou seu nome entre os leitores de poesia e venceu o Prêmio Alphonsus de Guimaraens, da Fundação Biblioteca Nacional. Desde então, cada livro ampliou um projeto estético constante: o de transformar experiência cotidiana em matéria de linguagem, com rigor de composição e abertura para o mundo.
As obras que marcaram a trajetória
Em O livro das semelhanças (2015), a poeta parte de impulsos quase imperceptíveis do dia a dia para interrogar a realidade pela linguagem, tratando o poema como objeto capaz de condensar a experiência do mundo. A obra recebeu o Prêmio APCA e ficou em terceiro lugar no Prêmio Oceanos.
O livro dos jardins (2019, Quelônio) aproxima o cultivo das plantas do fazer poético — em entrevista, a autora resumiu a ideia na fórmula de que "poesia se rega com falta d'água". Já Risque esta palavra (2021, Companhia das Letras) visita figuras femininas da tradição, como Medusa e Ofélia, e foi finalista dos prêmios Oceanos e Jabuti. Em 2023, De uma a outra ilha, publicado pelo Círculo de Poemas, levou sua poesia ao território de Lesbos, ilha de Safo transformada em rota de imigrantes, e chegou à lista de finalistas do Jabuti em 2024.
A obra inclui ainda duas parcerias: Duas janelas (2016), com Marcos Siscar, e Como se fosse a casa (uma correspondência) (2017), escrita com Eduardo Jorge no período em que ela morou temporariamente no apartamento do amigo, durante uma viagem dele à Europa. O livro reinscreve a tradição epistolar como gesto de criação a quatro mãos.
Prêmios e reconhecimento
- Prêmio Cidade de Belo Horizonte (2007 e 2008), para os poemas que deram origem a A vida submarina;
- Prêmio Alphonsus de Guimaraens, da Fundação Biblioteca Nacional (2012), por Da arte das armadilhas;
- Prêmio APCA (2015), por O livro das semelhanças;
- finalista do Prêmio Oceanos e do Prêmio Jabuti (2022), por Risque esta palavra;
- finalista do Prêmio Jabuti (2024), por De uma a outra ilha.
O que a poesia dela trata
Memória, tempo, vida cotidiana e os limites da linguagem são os territórios mais recorrentes. A crítica costuma destacar o modo como a poeta combina precisão formal e fluidez. O professor e crítico Murilo Marcondes de Moura descreve esse movimento como um "estreitamento entre linguagem e experiência", ideia que ajuda a entender por que os poemas dela soam ao mesmo tempo íntimos e universais.
A relação com as artes visuais atravessa a obra — da fotografia estudada no doutorado às imagens que os poemas constroem —, assim como o gosto pelos mitos gregos, retomados sem peso erudito. Em De uma a outra ilha, o fragmento de Safo vira procedimento: o que restou da poeta grega organiza um presente marcado por travessias, corpos e deslocamentos.
Por onde começar a ler
Quem chega agora à obra pode fazer um percurso pela ordem de publicação ou escolher entradas temáticas:
- A vida submarina — estreia e releitura de Penélope, indicada para conhecer o ponto de partida;
- Da arte das armadilhas — livro premiado, com metapoemas sobre o valor da poesia;
- O livro das semelhanças — talvez o título mais citado pela crítica e bom retrato da poética cotidiana;
- Risque esta palavra — para quem se interessa por mitologia e figuras femininas;
- De uma a outra ilha — poema longo sobre Lesbos, Safo e o Mediterrâneo contemporâneo.
Os livros da Companhia das Letras estão no catálogo da editora e em livrarias de todo o país; a plaquete De uma a outra ilha é vendida diretamente pelo Círculo de Poemas. Para acompanhar a obra e outras autoras do gênero, vale explorar a página de literatura do autoridades.org.
Leitora de formação acadêmica ou não, Ana Martins Marques oferece uma porta de entrada generosa para a poesia brasileira feita hoje: versos que não exigem erudição, mas que recompensam quem volta a eles. Quem procura uma voz contemporânea em que pensamento e emoção caminham juntos encontra na obra dela um caminho consistente — do mito grego ao jardim de casa, do fragmento de Safo à mesa de trabalho em Belo Horizonte.






