Publicado em 2021 pela Companhia das Letras, Risque esta palavra chega em um momento de maturidade da obra de Ana Martins Marques: depois de cinco livros solo, a poeta escreve com a liberdade de quem já não precisa provar nada. O resultado é um dos títulos mais comentados da sua trajetória recente — finalista dos prêmios Oceanos e Jabuti na temporada de 2022.
A proposta
O livro trabalha com figuras femininas clássicas como Medusa e Ofélia, deslocando-as do lugar tradicional para falar do presente. Em vez de repetir os mitos, a poeta os rasura: mantém o reconhecível e altera o sentido, operação que dialoga com o título — riscar a palavra é também escolher o que fica, o que sai e o que se transforma.
A dicção é ao mesmo tempo íntima e ampla. Poemas como "Alba", "Parte alguma" e "Silêncio" mostram uma poesia que pensa o tempo, o espaço e a linguagem sem abrir mão da experiência concreta. Em "Silêncio", a reflexão metalinguística sobre a palavra poética encontra uma formulação que a crítica destacou: o silêncio como "língua das coisas", jogo entre presença e ausência que atravessa todo o volume.
Recepção e prêmios
O livro entrou nas listas de finalistas do Prêmio Oceanos e do Prêmio Jabuti em 2022, dois dos principais reconhecimentos da literatura em língua portuguesa. A recepção na imprensa destacou a ampliação do alcance da autora: uma poesia que dialoga com a tradição sem pedir licença e que se deixa ler por públicos diferentes.
Em 2021, resenha da Folha de S.Paulo sobre o lançamento observou que a literatura da solidão da autora se ampliava e conquistava uma nova onda de leitores. O livro confirmou essa leitura: é uma obra que dialoga com a tradição clássica, mas fala diretamente com quem vive o presente.
Também é um livro em que a autora aprofunda a relação com as artes visuais e com a mitologia grega, marcas que acompanham sua obra desde a estreia. Quem conhece os livros anteriores reconhece a continuidade; quem chega agora encontra um volume autônomo, que funciona bem sozinho.
Como ler
- Identificar as figuras femininas retomadas e pesquisar a versão tradicional de cada mito antes de comparar com o poema;
- Observar como o gesto de riscar aparece no próprio vocabulário do livro;
- Ler "Silêncio" em voz alta — a sonoridade é parte do argumento;
- Voltar aos poemas mais curtos depois de terminar, quando o conjunto estiver claro.
Para quem é
O título interessa a leitoras e leitores atentos às releituras femininas da tradição, a pesquisadores de poesia contemporânea, a clubes de leitura que buscam material para discussão e a quem já acompanha a obra de Ana Martins Marques e quer conhecer a fase mais recente publicada pela Companhia das Letras. É também uma boa indicação para quem gosta de poesia que pensa a linguagem sem abandonar a emoção.
Depois dele, a obra da autora seguiu em frente com De uma a outra ilha (2023), mostrando que a fase aberta em 2021 ainda tinha desdobramentos a explorar.





