Há livros que mudam a posição de um autor na estante. O livro das semelhanças, publicado em 2015 pela Companhia das Letras, é o título que projetou Ana Martins Marques para um público mais amplo e consolidou sua presença entre os principais nomes da poesia brasileira contemporânea.
O que o livro faz
A proposta parte de impulsos cotidianos quase imperceptíveis: uma caminhada à noite, um gesto doméstico, uma observação de passagem. Desses materiais mínimos, a poeta constrói poemas que interrogam a realidade pela linguagem e tratam o poema como objeto capaz de condensar a experiência do mundo. O resultado é uma obra de aparência simples e efeito duradouro, em que cada texto parece guardar mais do que mostra na primeira leitura.
O poema "Uma caminhada noturna" costuma ser citado como exemplo do método: uma experiência íntima — o deslocamento pela cidade — se transforma em reflexão sobre amor, memória e percepção. É a poesia de Ana Martins Marques em estado representativo: intimista sem ser fechada, filosófica sem ser árida.
Prêmio APCA e terceiro lugar no Oceanos
O reconhecimento veio dos dois lados do Atlântico. No Brasil, o livro recebeu o Prêmio APCA, concedido pela Associação Paulista dos Críticos de Arte. Em Portugal, ficou em terceiro lugar no Prêmio Oceanos, um dos mais importantes da literatura de língua portuguesa, que naquele ano avaliou obras publicadas em vários países.
Os dois prêmios ajudam a explicar o alcance do livro: ele funciona tanto para leitores especializados, que acompanham os desdobramentos formais da poesia contemporânea, quanto para quem simplesmente gosta de versos que falam de vida cotidiana com precisão e estranheza.
Na fortuna crítica, o livro costuma ser lido ao lado de títulos da chamada novíssima poesia brasileira, geração que começou a publicar nos anos 2000 e renovou o diálogo entre lirismo e experiência urbana. A presença de Ana Martins Marques em antologias e estudos sobre esse período é constante — sinal de que O livro das semelhanças funciona tanto como obra de leitor quanto como objeto de pesquisa.
Como o livro se organiza
O volume reúne poemas escritos em registros variados, do curto ao meditativo, mantendo unidade pelo tom e pelo olhar. Alguns caminhos para a leitura:
- Ler o livro inteiro na ordem proposta pela autora, que construiu o conjunto como arco e não como coletânea;
- Anotar as imagens que retornam — espelhos, janelas, caminhos, superfícies — e verificar como mudam de sentido;
- Relacionar os poemas mais cotidianos aos metapoemas, observando a ponte que a autora constrói entre vida e linguagem;
- Conversar com Da arte das armadilhas: os dois livros formam um par sobre o que a poesia pode fazer.
Para quem é
Este é, para muitos leitores, o melhor ponto de entrada na obra da autora: um livro que já traz o estilo maduro, mas mantém acessibilidade. Interessa a quem acompanha o catálogo da Companhia das Letras, a professores que montam antologias de poesia brasileira recente, a clubes de leitura dispostos a discutir forma e conteúdo e a leitores que buscam uma voz feminina importante da literatura atual.
Quem chega por indicação de amigos ou listas de melhores do ano encontra aqui o que procurava: poemas que ficam na cabeça, uma dicção reconhecível e a confirmação de que Ana Martins Marques é uma das autoras decisivas da sua geração.





