Deslocamentos do feminino: a mulher freudiana na passagem para a modernidade nasceu da tese de doutorado de Maria Rita Kehl na PUC-SP, em 1997. Publicado pela Imago em 1998 e reeditado pela Boitempo em 2016, o livro pergunta de onde veio o discurso que ainda descreve uma natureza feminina eterna — e o que a clínica faz quando escuta mulheres a partir desse molde.
Não é história das mulheres nem catálogo de representações. Kehl usa um pouco de história para entender como os discursos se fixaram; usa Madame Bovary como paradigma da mulher freudiana; e volta a Freud para ver o que o inventor da psicanálise falhou em escutar nas queixas que ele mesmo autorizou.
Três partes, um problema
A primeira parte reconstitui a feminilidade no século XIX e a origem dos discursos tomados como descrição de uma natureza. A segunda lê Emma Bovary como figura alienada num discurso em que seus anseios não encontram palavra. A terceira enfrenta as teorias freudianas sobre as mulheres e a sexualidade feminina, e o que isso ainda faz na clínica contemporânea.
O eixo teórico é a mínima diferença: um modo de ser e de desejar pelo qual homens e mulheres ocupam lugares distintos, sem transformar isso em essência eterna. Kehl recusa tanto a ficha biológica rígida quanto o apagamento da diferença. A histeria, no recorte dela, pode ser lida como recusa de uma identificação com uma natureza feminina universal — um feminismo espontâneo, na fórmula que a autora arrisca no prefácio da reedição.
A edição Boitempo tem 232 páginas (ISBN 978-8575595053). A autora atualizou o texto para a nova edição, num momento em que o debate sobre gênero já tinha outros vocabulários. O livro permanece, porém, um ensaio de psicanálise e literatura, não um manifesto de época.
Para quem faz sentido
- Estudantes de psicanálise que precisam reler Freud sobre a feminilidade sem engolir a ficha pronta.
- Leitores de Flaubert interessados no que o romance revela do imaginário de gênero.
- Quem pesquisa clínica, histeria e o mal-estar descrito como feminino no século XIX.
- Quem chegou a Kehl por O tempo e o cão e quer o livro de formação da autora.
Por que importa na trajetória da autora
Este é o livro de origem acadêmica. Sem ele, a ensaísta pública dos anos 2000 e 2010 parece ter surgido pronta. Com ele, vê-se o método: literatura como documento do imaginário, clínica como prova, Freud como interlocutor a ser lido de perto e contra a letra fácil. A reedição da Boitempo recoloca o doutorado no mesmo catálogo de O tempo e o cão e Ressentimento.
Como ler e onde encontrar
A edição comercial corrente está na Amazon Brasil. Para o contexto da autora, a Boitempo e o perfil público de Maria Rita Kehl completam o quadro. Quem quiser o ensaio clínico da depressão deve ir ao Jabuti; quem quiser a formação da escuta sobre as mulheres começa aqui.




