O tempo e o cão: a atualidade das depressões, de Maria Rita Kehl, é o ensaio da Boitempo que deslocou a depressão do recinto privado do diagnóstico para o campo do sintoma social. Publicado em 2009 e vencedor do Jabuti de 2010 — inclusive como Livro do Ano de Não Ficção —, o texto parte do consultório e recua até a melancolia antiga para perguntar o que a pressa contemporânea faz com quem não consegue acompanhar o relógio.
Não é manual de autoajuda nem ficha de DSM. São três ensaios. O primeiro reconstitui o lugar simbólico da melancolia, da Antiguidade clássica até Freud, que, segundo a autora, “privatizou” o conceito: o antigo sintoma social voltou com o nome de depressão. O segundo trabalha a temporalidade do depressivo com Henri Bergson e Walter Benjamin. O terceiro distingue a posição depressiva da melancolia e dos episódios pontuais na histeria e na obsessão.
Do que trata o livro
Kehl escreve a partir do contato com pacientes depressivos. O argumento é que a depressão contemporânea dialoga com um tempo sem experiência: vivência no lugar de transmissão, tédio interditado, rivalidade fálica recusada. A prosa é densa e pede alguma bagagem de Freud e Lacan, mas não se fecha em jargão de escola. Relatos de analisantes anônimos aparecem em dois momentos, o que evita transformar o ensaio em pura teoria.
Benjamin entra pela diferença entre vivência e experiência: a primeira passa sem deixar marca; a segunda pede transmissão, história, laço. Bergson entra pela duração, o tempo que não cabe no relógio. A clínica, no terceiro ensaio, tenta separar quem se organiza numa posição depressiva de quem atravessa um episódio depressivo dentro de outra estrutura. Essa distinção é o ganho prático mais citado por quem lê o livro na formação em psicanálise.
A edição corrente da Boitempo tem 312 páginas (ISBN 978-8575594735). Há versão impressa e Kindle. O selo do Jabuti na capa registra o que aconteceu em 2010: o ensaio saiu do circuito estritamente psicanalítico e passou a ser citado por quem discute saúde mental, trabalho e ritmo de vida.
Para quem faz sentido
- Estudantes e profissionais de psicologia, psicanálise e saúde mental.
- Leitores que querem ir além do vocabulário estatístico da depressão.
- Quem busca a relação entre clínica, tempo e vida urbana contemporânea.
- Quem chegou a Maria Rita Kehl pela imprensa e quer o ensaio de lastro.
Por que importa na trajetória da autora
Antes dele, Kehl já tinha publicado deslocamentos do feminino, ressentimento na primeira edição e crônicas. O tempo e o cão é o livro em que a clínica encontra o grande público sem virar divulgação rasa. Muitas falas posteriores — entrevistas, Café Filosófico, artigos — reutilizam o vocabulário da temporalidade e do sintoma social. Quem começa por aqui entende por que a autora recusa tratar a depressão só como falha individual.
Como ler e onde encontrar
Vale ler devagar, anotando a distinção entre depressão como estrutura e episódio depressivo na neurose. Não há passo a passo de cura. Se o interesse for a edição comercial, o link de venda leva à página do título na Amazon Brasil. Para o restante da obra, a Boitempo reúne os ensaios seguintes, inclusive Ressentimento e Tempo esquisito.




