Quem busca Maria Rita Kehl raramente chega só pela ficha de psicanalista. Chega porque leu um ensaio sobre depressão, porque viu o nome na Comissão Nacional da Verdade ou porque uma crônica sobre voto e Bolsa Família tirou a autora da coluna do Estadão em 2010. A clínica e o debate público, nela, nunca andaram em prateleiras separadas.
Nascida em Campinas em 10 de dezembro de 1951, formou-se em Psicologia na USP, escreveu no jornalismo alternativo da ditadura militar e, desde 1981, atende em São Paulo. O doutorado na PUC-SP virou livro; o Jabuti de 2010, com O tempo e o cão, consolidou a leitura da depressão como sintoma social. O que segue é o perfil da pessoa pública — a obra entra aqui só o bastante para situar o caminho.
Quem é Maria Rita Kehl
Maria Rita Kehl é psicanalista, jornalista, ensaísta, poetisa, cronista e crítica literária. A combinação não é ornamento de currículo: ela atravessou redação, consultório, universidade e comissão oficial sem abandonar a escrita. Publica artigos em jornais e revistas de São Paulo e do Rio de Janeiro, participa de ciclos como o Café Filosófico e o Fronteiras do Pensamento e mantém página oficial no Instagram e no Facebook.
No campo da psicologia brasileira contemporânea, seu nome circula ao lado de outros ensaístas que levam a clínica para a rua — entre eles Christian Dunker, com quem já dividiu mesa de debate em lançamento da Boitempo. A diferença de recorte é nítida: Kehl veio do jornalismo de oposição e da crônica, não da cátedra universitária como eixo principal.
- Clínica — atende como psicanalista em São Paulo desde 1981.
- Formação — Psicologia na USP, mestrado em Psicologia Social na mesma universidade e doutorado em Psicanálise na PUC-SP, em 1997.
- Escrita — ensaios, crônicas e livros pela Boitempo, Imago, Companhia das Letras e outras editoras.
- Vida pública — Comissão Nacional da Verdade (2012–2014), atendimento na Escola Nacional Florestan Fernandes do MST e colunas na imprensa.
Da redação à clínica
Ainda na graduação, escreveu para o Jornal do Bairro, então dirigido por Raduan Nassar. Foi editora do jornal Movimento, um dos títulos do jornalismo alternativo sob a ditadura, e participou da fundação de Em Tempo. Depois trabalhou como freelancer para Veja, Isto É e Folha de S. Paulo. A passagem pela imprensa não foi um desvio: virou método de olhar o país antes de sentar no divã.
Em 1979, no mestrado em Psicologia Social da USP, defendeu dissertação sobre o papel da Rede Globo e das novelas na “domesticação” do Brasil durante o regime militar. Em 1981 começou a atender pacientes e não parou. O doutorado na PUC-SP, em 1997, resultou em Deslocamentos do feminino — A mulher freudiana na passagem para a modernidade, publicado pela Imago no ano seguinte e reeditado pela Boitempo.
Neta dos escritores Eunice Penna e Renato Kehl, ela carrega uma linhagem literária que ajuda a explicar o trânsito fácil entre clínica, crônica e crítica. Não se trata de biografia ornamental: a prosa de Kehl deve tanto ao consultório quanto à página de jornal.
Comissão da Verdade e a escuta fora do consultório
Entre 2006 e 2011, atendeu na Escola Nacional Florestan Fernandes, do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra, em Guararema (SP). A escuta saiu do consultório paulistano e foi para o chão de um movimento social — um deslocamento que reaparece em artigos e entrevistas.
Em 2012, foi convidada a integrar a Comissão Nacional da Verdade, instalada em 16 de maio daquele ano para apurar violações de direitos humanos ocorridas entre 18 de setembro de 1946 e 5 de outubro de 1988. O trabalho durou até 2014. No mesmo eixo de reconhecimento público, recebeu a Ordem de Rio Branco e, em 2010, o Prêmio Direitos Humanos do governo federal na categoria Mídia e Direitos Humanos.
Quem procura “Maria Rita Kehl Comissão da Verdade” não encontra uma especialista de gabinete. Encontra alguém que já tinha décadas de clínica e de imprensa quando aceitou o encargo — e que, depois, voltou a escrever sobre o país a partir dessa experiência, sem transformar o relatório em único cartão de visita.
Livros, prêmios e o debate público
O ensaio que mais circula é O tempo e o cão: a atualidade das depressões (Boitempo). Em 2010, a obra venceu o Prêmio Jabuti na categoria Educação, Psicologia e Psicanálise e também como Livro do Ano de Não Ficção. A tese central é seca: a depressão contemporânea não se reduz a um diagnóstico privado; carrega um sintoma social, com uma relação peculiar com o tempo.
Ressentimento, reeditado pela Boitempo em 2020, cruza clínica, Nietzsche, Espinosa, literatura e política. Deslocamentos do feminino relê Freud, Flaubert e a constituição da feminilidade no século XIX. Tempo esquisito (2023) reúne textos escritos em grande parte na quarentena da covid-19, sobre saúde pública, violência e cultura. Há ainda crônicas (18 crônicas e mais algumas), o diálogo com Eugênio Bucci em Videologias e ensaios como Bovarismo brasileiro.
A Boitempo é a casa editorial mais visível dessa fase. Os livros não substituem a clínica nem a crônica: são o lugar em que Kehl amarra o que escuta no consultório com o que vê no jornal.
A coluna do Estadão e a crônica “Dois pesos”
Em fevereiro de 2010, estreou coluna quinzenal no Caderno 2 de O Estado de S. Paulo. Em 2 de outubro daquele ano, publicou “Dois pesos...”, texto que recusava a tese — então circulando em correntes de e-mail — de que o voto dos mais pobres valeria menos. A crônica saiu no segundo turno da eleição presidencial, quando o jornal apoiava José Serra.
Quatro dias depois, a colunista deixou o jornal. Maria Rita descreveu o episódio como “delito de opinião”. O diretor Ricardo Gandour disse que não houve demissão nem censura, e que “colunistas se revezam, cumprem ciclos”. A coluna saiu integral. O artigo entrou depois em 18 crônicas e mais algumas. O episódio ficou como marca pública: uma psicanalista que recusou escrever só sobre o divã quando o jornal pedia contenção política.
Por onde começar a leitura
Para a clínica da depressão e o argumento do tempo, O tempo e o cão continua sendo a porta de entrada. Para o afeto político que atravessa consultório e rua, Ressentimento. Para a discussão sobre mulher, Freud e modernidade, Deslocamentos do feminino. Para o Brasil recente, da pandemia à violência policial, Tempo esquisito.
Quem quiser o perfil em primeira pessoa encontra entrevistas longas, o Café Filosófico da CPFL e a página da autora na Boitempo. A clínica permanece em São Paulo; a escrita, nas livrarias e nas redes oficiais. O ponto de partida é o mesmo em qualquer rota: Maria Rita Kehl trata o sofrimento como assunto público, sem abrir mão do rigor da escuta.





