Tempo esquisito, de Maria Rita Kehl, reúne reflexões escritas em grande parte durante a quarentena da covid-19. A psicanalista diz no prólogo que escrever foi um modo de ocupar o debate público sem romper o isolamento: uma forma de estar com os outros. O livro saiu pela Boitempo em 2023 e traz a crônica e o artigo de conjuntura para o mesmo volume em que ela costuma publicar o ensaio clínico.
Os textos cobrem o Brasil desde 2019: saúde pública, negacionismo, violência policial, indiferença e desigualdade. Há artigos sobre o linchamento de Moïse Kabagambe, no Rio, em 2021, e sobre a morte de Genivaldo dos Santos, asfixiado pela Polícia Rodoviária Federal em Sergipe, em 2022. Há também música, cinema, teatro e psicanálise — o lembrete, nas palavras da autora, de que não somos só isso.
O que o volume faz
Kehl recorre à banalidade do mal, de Hannah Arendt, e admite desviar o sentido original da expressão para ler a leviandade com que se praticam ruindades contra gente vulnerável, e a indiferença diante da miséria nas cidades. Não é tratado de filosofia política: são artigos de quem escreve com a mão da clínica e o olho do jornalismo.
Entre os textos mais citados está Lugar de cale-se, sobre quem pode falar no debate público. A pergunta do artigo é concreta: o que seria da democracia se cada um só pudesse se expressar sobre a própria experiência pessoal. O volume funciona como diário intelectual de um período, não como retrato definitivo do país. A edição tem 192 páginas (ISBN 978-6557172407).
Para quem faz sentido
- Leitores que acompanham a crônica política de Kehl e querem os textos reunidos.
- Quem busca a ponte entre psicanálise, pandemia e violência no Brasil recente.
- Estudantes que precisam de ensaios curtos, datados, em vez de um tratado único.
- Quem já leu O tempo e o cão ou Ressentimento e quer a prosa de circunstância.
Por que importa na trajetória da autora
Depois do Jabuti e da Comissão da Verdade, Tempo esquisito mostra a ensaísta ainda na rua, agora sob pandemia e polarização. O livro não substitui os ensaios de conceito; documenta o tom da intervenção pública quando o consultório e a quarentena coincidiram. Quem conhece a saída do Estadão em 2010 reconhece a mesma recusa de se limitar ao divã.
Como ler e onde encontrar
A ordem dos textos importa menos do que a data: cada artigo responde a um acontecimento. Vale ler como sequência de intervenções, não como sistema. A edição impressa e o Kindle estão na Amazon Brasil; a página da autora na Boitempo lista o volume ao lado dos ensaios anteriores.




