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Diga a coisa como ela é

Livro
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Coletânea de 2026 com mais de quarenta textos da coluna de Tatiana Salem Levy no Valor Econômico, entre ensaio e crônica.

Durante quase uma década, quinzena após quinzena, Tatiana Salem Levy leu em público no Valor Econômico. Diga a coisa como ela é, lançado em 2026 pela Tinta-da-China Brasil, reúne mais de quarenta desses textos. Não é sobra de coluna encadernada. É o retrato de uma romancista no exercício de leitora: crítica sem cátedra, crônica sem fofoca, ensaio que trata o livro alheio como modo de ver o mundo.

O que o volume faz

Organizado em seis blocos temáticos, o livro percorre clássicos e contemporâneos — Sófocles, Tolstói, Mary Shelley de um lado; Micheliny Verunschk e Itamar Vieira Junior de outro — sem hierarquia rígida. Os eixos, segundo a editora, atravessam a relação entre pais e filhos, o corpo na literatura, o feminino, a memória, a identidade, a sexualidade, a filosofia, o meio ambiente, a crítica e a política. No fim, uma seção de leituras recomendadas convida a prolongar o percurso.

A orelha é de Beatriz Resende. O lançamento, em julho de 2026, coincidiu com agenda da autora no Brasil, inclusive na Flip. São 240 páginas, formato 14 x 21 cm, ISBN 978-65-84835-67-2. O tom não imita resenha de fim de semana nem paper universitário. Tatiana escreve como quem pensa em voz alta a partir de um livro, e o pensamento puxa outro, e de repente o leitor está diante de uma cena familiar, de um corpo, de um silêncio — os mesmos materiais da ficção dela, agora em chave ensaística.

Para quem este livro existe

Serve a quem já lê a autora e quer vê-la pelo outro lado da mesa: não a narradora de Vista chinesa, e sim a leitora que monta repertório. Serve também a quem acompanha o caderno Eu & do Valor e prefere o papel ao paywall. E serve a quem busca um mapa afetivo da literatura contemporânea em português, com escala internacional, sem a pose de “os 50 livros que você precisa ler”.

Há precedente no catálogo dela. A experiência do fora (2003/2010) era ensaio filosófico de formação. O mundo não vai acabar (José Olympio, 2017) já reunia crônicas. Diga a coisa como ela é é o volume maduro desse filão: menos diário de colunista, mais livro com arquitetura. A Tinta-da-China, editora com quem ela já dialogava pelo lado português, publica no Brasil um trabalho pensado para durar além da quinzena do jornal.

Como a ensaísta conversa com a romancista

Quem conhece os romances reconhece obsessões. Pais e filhos, corpo, memória, o que se cala em casa: os temas de A chave de casa e Melhor não contar reaparecem quando ela lê os outros. A diferença é o endereço da frase. No romance, a dor é da narradora. No ensaio, a dor (ou o espanto, ou o prazer) nasce do encontro com um livro. A autora recusa o modelo tradicional da crítica literária — análise sistemática, jargão, distância — e privilegia o fluxo. Isso pode irritar quem quer ficha técnica. Para o leitor comum, é exatamente o ganho: sair da coluna com vontade de abrir o volume comentado.

O título funciona como programa. Dizer a coisa como ela é, no caso de Tatiana, nunca foi literalidade jornalística. É o contrário do eufemismo familiar que os romances denunciam. Nos ensaios, o gesto se desloca para a leitura: nomear o que o texto faz, sem rodeio de “proposta ímpar” ou “obra imprescindível”. Há risco de o volume parecer mosaico. A organização em blocos e a lista final de leituras seguram o conjunto.

Compra, uso e o que o livro não é

Não substitui os romances. Não é autobiografia. Não é curso de escrita criativa. É um livro de ensaios e crônicas literárias para ler aos poucos — um texto por vez, como nasceu no jornal — ou de um fôlego, para mapear o repertório da autora. A edição impressa está na Tinta-da-China Brasil e na Amazon; há ebook. Preço de capa na loja da editora, no lançamento, era o de um ensaio de 240 páginas, sem virar objeto de colecionador. Para quem quer a Tatiana Salem Levy além da ficção de trauma e cidade, este é o volume que mostra a leitora em serviço — e explica, de quebra, de onde vem a precisão da romancista.

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