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Tatiana Salem Levy

Nascimento: 1979 Lisboa, Portugal
Escritora e ensaísta nascida em Lisboa em 1979, pesquisadora na Universidade Nova de Lisboa e autora de A chave de casa, Vista chinesa e Melhor não contar.

O avô judeu sefardita guardava a chave de uma casa em Esmirna e nunca voltou. A neta nasceu em Lisboa porque os pais brasileiros estavam no exílio da ditadura, chegou ao Rio de Janeiro com nove meses e, décadas depois, transformou aquela chave em romance. Tatiana Salem Levy entrou na literatura brasileira por essa imagem — e ficou porque recusou transformar luto, herança e violência em silêncio educado.

Romancista, ensaísta, tradutora e pesquisadora da Universidade Nova de Lisboa, ela venceu o Prêmio São Paulo de Literatura em 2008 com A chave de casa, integrou a lista da Granta dos vinte melhores jovens escritores brasileiros em 2012 e, nos anos 2020, voltou ao centro do debate com Vista chinesa e Melhor não contar. Desde 2014 escreve coluna quinzenal no Valor Econômico. Vive em Lisboa, com o Rio sempre atravessando a prosa.

Quem é Tatiana Salem Levy

Tatiana Salem Levy nasceu em Lisboa em 24 de janeiro de 1979, filha de brasileiros de origem judaico-turca que se exilaram em Portugal durante o regime militar. Nove meses depois, com a Lei da Anistia, a família voltou ao Brasil. Cresceu no Rio, formou-se em Letras na UFRJ e fez mestrado e doutorado na PUC-Rio. A dissertação sobre Blanchot, Foucault e Deleuze saiu em livro; a tese de doutorado já carregava o material ficcional que viraria o primeiro romance.

Essa combinação — filha do exílio, neta de sefarditas, leitora de filosofia francesa e narradora do corpo feminino — explica por que seus livros não cabem numa gaveta só. Há memória familiar, há cidade, há sexo e há luto. Há também o ofício acadêmico: ela integra o Instituto de Filosofia da NOVA, em Lisboa, e coordena, em parceria com a PUC-Rio, a coleção Ensaio Aberto, dedicada ao encontro entre filosofia e literatura.

Lisboa, Rio e a herança sefardita

A biografia pública de Tatiana Salem Levy começa num deslocamento que ela não escolheu. Nascer em Lisboa, voltar ao Rio ainda bebê e, adulta, cruzar de novo o Atlântico para morar em Portugal não é detalhe de passaporte: é matéria dos livros. Em A chave de casa, a narradora recebe do avô a chave da antiga casa em Esmirna e parte em busca de um passado que a família carregou em silêncio, da Inquisição portuguesa à imigração turca rumo ao Brasil.

O Rio, no entanto, nunca sai de cena. Mesmo depois de uma década em Portugal — ela mesma disse, em 2023, que sua literatura “é brasileira e vai ser sempre” —, a cidade aparece como corpo, mata, mirante e ameaça. Vista chinesa se passa no Alto da Boa Vista, no momento em que o Rio se vendia ao mundo como sede da Copa e das Olimpíadas. A paisagem bonita não protege a protagonista. Essa tensão entre cartão-postal e violência atravessa boa parte da obra.

Formação, tradução e pesquisa

Na UFRJ, concluiu Letras com ênfase em português e literatura (1999) e em francês (2002). Na PUC-Rio, o mestrado em estudos literários (2002) gerou o ensaio A experiência do fora: Blanchot, Foucault e Deleuze, publicado pela Relume Dumará em 2003 e reeditado pela Civilização Brasileira. O doutorado, defendido em 2007, passou por períodos na Brown University e na Universidade de Paris III. É tradutora de francês: entre os trabalhos públicos está a biografia Nos passos de Hannah Arendt, de Laure Adler, além de romances de Stéphane Audeguy.

Essa formação pesa na página sem transformá-la em seminário. A prosa é íntima, às vezes cortante, e a crítica já a aproximou de uma linhagem introspectiva que inclui Marguerite Duras, Virginia Woolf e Clarice Lispector — comparação que a orelha da edição revista de A chave de casa, assinada por Diana Klinger, deixa explícita. O ponto não é imitar ninguém: é escrever o luto, o desejo e a memória com a mesma recusa de enredo fácil.

  • Nascimento: Lisboa, 24 de janeiro de 1979; retorno ao Rio ainda no primeiro ano de vida.
  • Formação: Letras na UFRJ; mestrado e doutorado em literatura na PUC-Rio.
  • Atuação atual: escritora, ensaísta e pesquisadora na Universidade Nova de Lisboa.
  • Reconhecimentos: Prêmio São Paulo de Literatura (2008), Granta Best of Young Brazilian Novelists (2012), English PEN Translate (2015); finalista de Jabuti, Oceanos e São Paulo com Vista chinesa.
  • Presença pública: coluna no Valor Econômico desde 2014; livros traduzidos em mais de uma dezena de países.

Como A chave de casa a tornou um nome público

Publicado em 2007 — em Portugal pela Cotovia, no Brasil pela Record — A chave de casa é o romance de estreia e ainda o título que a Enciclopédia Itaú Cultural trata como obra maior. A narradora, como a autora, é brasileira neta de judeus turcos. Viaja, escreve, disputa com a voz da mãe morta e tenta cumprir o encargo do avô. O livro venceu o Prêmio São Paulo de Literatura na categoria de autor estreante, foi finalista do Jabuti e do Zaffari & Bourbon e saiu em francês, italiano, espanhol, turco, inglês e outras línguas. A tradução inglesa, The House in Smyrna, de Alison Entrekin, entrou na lista de melhores do ano do The Guardian em 2015.

Em 2025, a Record relançou uma edição revista, com orelha de Diana Klinger, posfácio de Natalia Timerman e nova capa. O gesto diz o óbvio que o mercado às vezes esquece: o primeiro livro não envelheceu como peça de arquivo. Continua sendo a porta de entrada para quem quer entender o método de Tatiana — misturar o que é da vida com o que só a ficção consegue organizar.

Vista chinesa, Melhor não contar e o recuo do silêncio

Depois vieram Dois rios (2011), a coletânea Primos (2010), os infantis Curupira Pirapora e Tanto mar — premiados pela FNLIJ e pela ABL —, Paraíso (2014) e o volume de crônicas O mundo não vai acabar (2017). O salto de repercussão recente, porém, veio com dois romances da Todavia. Vista chinesa (2021), inspirado no estupro sofrido pela diretora Joana Jabace, é uma carta da protagonista aos filhos e foi finalista do Jabuti, do Oceanos e do Prêmio São Paulo. Os direitos audiovisuais foram vendidos à Conspiração Filmes.

Melhor não contar (2024) aperta ainda mais o parafuso da autoficção. A narradora enfrenta o abuso do padrasto, a morte da mãe — a jornalista Helena Salem, primeira correspondente de guerra brasileira — e o que se faz com uma história que muita gente pede para guardar. Tatiana disse à imprensa que não escreveu o livro para condenar nem para perdoar. Escreveu para contar. Em 2026, reuniu mais de uma década de coluna no volume de ensaios Diga a coisa como ela é, pela Tinta-da-China Brasil, em que lê desde Sófocles até autoras e autores contemporâneos, entre eles Itamar Vieira Junior.

Coluna, ensaios e o que ler primeiro

A coluna no Valor Econômico mostra a outra face da mesma escritora: leitora voraz, crítica sem jargão de cátedra, alguém que trata o livro alheio como conversa, não como vitrine. Em Lisboa, a pesquisa na NOVA mantém o trânsito entre filosofia e ficção. No Instagram, o perfil @tatisalemlevy concentra lançamentos e agenda, sem a pose de autora-influenciadora — ela já disse, no Paiol Literário, que não consegue “vender” o próprio livro nas redes do jeito que o mercado cobra.

Para começar, A chave de casa ainda é o mapa da origem. Quem quer o livro mais discutido da última década vai a Vista chinesa. Quem busca o texto mais exposto, o que a própria autora chamou de confronto com o que “é melhor não contar”, encontra o romance de 2024. Os ensaios de 2026 servem a quem quer vê-la como leitora. Em todos os casos, o que se lê não é catálogo de literatura brasileira contemporânea: é uma voz que insiste em nomear o que a família, a cidade e o país prefeririam deixar em branco.

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Projetos de Tatiana Salem Levy

A chave de casa
A chave de casa
Romance de estreia de Tatiana Salem Levy: uma neta parte rumo a Esmirna com a chave da casa que o avô judeu sefardita nunca reviu.
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Vista chinesa
Vista chinesa
Romance de 2021 em que Tatiana Salem Levy transforma um estupro no Alto da Boa Vista numa carta da protagonista aos filhos.
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Melhor não contar
Melhor não contar
Romance autoficcional de 2024 sobre o abuso do padrasto, a morte da mãe e o preço de desobedecer ao silêncio familiar.
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Diga a coisa como ela é
Diga a coisa como ela é
Coletânea de 2026 com mais de quarenta textos da coluna de Tatiana Salem Levy no Valor Econômico, entre ensaio e crônica.
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