O título é um conselho que a narradora recusa. Melhor não contar, romance de Tatiana Salem Levy lançado pela Todavia em 2024, abre com uma menina de dez anos na piscina, ao lado da mãe e do padrasto cineasta. Ele a desenha sem a parte de cima do biquíni. A inocência acaba ali. O livro segue, décadas depois, o rastro desse olhar — e o da mãe que a doença vai tirar cedo demais.
O que a narradora decide contar
A protagonista relaxa ao sol; o padrasto mostra o esboço; os mamilos da menina estão marcados com força no papel. A cena, descrita na sinopse da editora, inaugura um romance de 224 páginas que mistura memória, trechos de diário e cartas. Mais tarde, na adolescência, o assédio do mesmo padrasto se torna recorrente. A mãe — eco da jornalista Helena Salem, primeira correspondente de guerra brasileira, morta de câncer aos 51 anos, em 1999 — é a figura de admiração e espelhamento. O livro atravessa também um aborto na vida adulta, já no exterior, e a reação fria de um companheiro.
Tatiana chamou o projeto, em entrevistas à Folha, ao Estadão e à Marie Claire, de romance autoficcional. Disse que a ideia inicial era escrever sobre os diários da mãe, recebidos na adolescência, e que o outro fio — o abuso — se impôs. “Não escrevi este livro para condenar ninguém. Nem para perdoar.” A frase importa: o texto não é libelo. É uma narrativa que usa o paradoxo do título para fazer exatamente o contrário do que a família, o terapeuta e o namorado pedem.
Público e relevância
O livro interessa a quem lê autoficção contemporânea, literatura de mulheres sobre violência doméstica e luto, e a quem acompanhou Vista chinesa e quer o passo seguinte da autora. Tati Bernardi, na Folha, escreveu que o romance é “delicado ao retratar seu amadurecimento e biliar ao narrar os abusos”. O Estadão o descreveu como o livro “mais corajoso” da trajetória. Não é unânime chamar de memoir: a própria autora trabalha no limite entre romance e testemunho, com recursos de suspense que impedem a leitura de “relato puro”.
Capa de Flavia Castanheira e Carolina Martinez. Lançamento em junho de 2024. Em Portugal, saiu pela Elsinore. Em entrevistas, Tatiana — que mora em Lisboa há mais de uma década — veio ao Brasil para a agenda de lançamento. O volume se encaixa numa conversa literária mais larga, da qual a autora já participava: violência contra a mulher, silêncio familiar, o que se transmite de geração em geração quando ninguém nomeia o dano.
Mãe, escrita e o que o silêncio custa
Helena Salem não é personagem ilustrativa. Foi jornalista de guerra e, depois, estudiosa do cinema brasileiro. A filha herda ofício e arquivo: diários, cartas, a cena da memória. Escrever, para as duas, aparece no livro como modo de montar o que inquieta. O luto da mãe e o abuso do padrasto não competem por espaço; se enroscam. A narradora precisa das duas histórias para entender a própria voz. Há também a pergunta, explícita na sinopse da Todavia, sobre a diferença entre mulheres e homens na hora de narrar — o companheiro que pede para não “estragar” a viagem com o passado.
Quem chega sem ter lido os romances anteriores encontra um texto autossuficiente. Quem já conhece A chave de casa reconhece a mãe como presença fantasma que agora ganha nome, doença e diário. A continuidade não é fórmula: é obsessão amadurecida. Tatiana disse à Marie Claire que não acredita em cura para certos eventos. O livro não oferece superação. Oferece narrativa.
Avisos e o que não esperar
Há abuso sexual de menor, assédio reiterado, doença terminal, aborto. A prosa não é gráfica à maneira de choque gratuito, mas também não suaviza. O padrasto não é um enigma a ser revelado no último capítulo: o dano está visível desde a piscina. O que o livro investiga é o depois — quem soube, quem calou, o que a escrita pode e não pode. Não promete fechamento jurídico nem reconciliação. Para o leitor disposto a essa matéria, é o romance em que Tatiana Salem Levy mais expõe o preço de obedecer ao conselho do título — e o preço, maior, de desobedecer.




