Entre ossos agora é o livro em que Maitê Proença volta à crônica e recusa o gesto fácil de reimprimir a estreia. A Record lançou o volume em 2015, com 192 páginas. A proposta, escrita na própria apresentação da edição, é explícita: não se trata só de recolocar na livraria o que já existia. São 22 crônicas novas somadas a 36 revistas pela autora.
A origem está na revista Época. Em 2003, já com décadas de televisão, Maitê aceitou uma coluna e passou a escrever em nome próprio. As crônicas falavam de memória, do Brasil, de amor, de sexo, de indignação, sem o filtro de personagem. O melhor desse período foi reunido em Entre ossos e a escrita, livro de 2005 que a Ediouro e, em outras edições, a Agir puseram em circulação, e que também saiu em Portugal pela Oficina do Livro. Uma década depois, com Uma vida inventada e Todo vícios já publicados, ela releu aquela estreia.
Por que não é a mesma obra com outro nome
Reedição, no senso comum, troca papel e capa. Entre ossos agora faz outra coisa. A autora entra no texto antigo com o ouvido de quem já escreveu romance e corta, ajusta, acrescenta. O resultado pede leitura própria. Quem guardou o volume de 2005 não tem, automaticamente, este. Faltam as crônicas novas e falta a releitura que ela fez quando já não era estreante.
O prefácio histórico de Entre ossos e a escrita, assinado por Carlos Heitor Cony, ajudou a apresentar a atriz como alguém que escrevia sem disfarce. Na edição de 2015, a aposta é outra: mostrar que a coluna não foi um desvio simpático de celebridade, e sim o primeiro movimento de uma carreira literária. A Record posiciona o livro exatamente nesse ponto, citando os romances anteriores como a experiência que autoriza a releitura.
O que o leitor encontra
O miolo continua sendo crônica. Texto curto, opinião, cena, memória. Não há enredo de Stella e João, nem a menina viajante de Uma vida inventada. Há uma autora falando de perto, com a ironia que já estava na coluna e com assuntos que a sinopse chama de espinhosos. A diagramação da edição da Record, comentada por leitores na época do lançamento, brinca com azul e vermelho sobre uma foto da própria Maitê, o título em letras grandes atravessando o rosto. A capa é retrato e é projeto. Diferente dos romances, aqui o rosto volta, porque a crônica também é presença.
- Casa e ano: Record, 2015.
- Extensão anunciada: 192 páginas.
- Miolo: 22 crônicas inéditas e 36 reescritas.
- Base: a coluna da Época e o livro Entre ossos e a escrita.
- Leitura: crônica, não romance e não peça.
Como usar este livro para entender a autora
Quem chega a Maitê pela televisão e quer o texto mais próximo da voz dela, sem o pacto duplo da ficção, começa melhor por aqui do que pelo romance. A crônica foi o laboratório. Achadas e Perdidas, a peça dirigida por Roberto Talma, saiu desse mesmo material e ficou três anos em cartaz. Entre ossos agora é a versão de livraria dessa voz, já passada pelo filtro de uma autora que não estava mais experimentando pela primeira vez.
O limite também é claro. Não espere biografia organizada em capítulos de vida, nem a filmografia comentada, nem confissão completa da tragédia familiar. A crônica escolhe o recorte. O que fica de fora continua de fora. A edição em português está na Amazon brasileira sob o título Entre ossos agora, com a capa da Record em que o nome dela e o título dividem a mesma fotografia.



